Sabotagem ou negligência.

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Um exército de advogados dos maiores e mais conceituados escritórios do país esquadrinha há mais de um ano os processos da Operação Lava-Jato em busca de algo que possa ser usado na Justiça para tentar questionar a validade das investigações sobre o maior escândalo de corrupção da história do país. É a única chance que os advogados têm de livrar da punição exemplar seus clientes, empreiteiros, políticos e funcionários públicos corruptos, que desviaram mais de 6 bilhões de reais dos cofres da Petrobras. É também a última esperança de proteger a identidade dos mentores e principais beneficiários do esquema que usou o dinheiro dos brasileiros para enriquecer e comprar o poder. Até hoje o Supremo Tribunal Federal (STF) e o Superior Tribunal de Justiça (STJ) rejeitaram todas as incursões nessa direção.

Na semana passada, o empresário Ricardo Pessoa, apontado como o chefe do clube das empreiteiras envolvidas, assinou um acordo de delação premiada, confessou sua participação no crime e se comprometeu a contar o que sabe — e o que ele sabe implica no caso o ex-presidente Lula, a campanha da presidente Dilma e alguns de seus principais assessores. A colaboração de Pessoa levará os policiais e os procuradores à derradeira fase da investigação, ao iluminar o caminho completo trilhado pelo dinheiro roubado e permitir que se rastreie com precisão a cadeia de comando. De onde menos se esperaria, surge agora uma incursão que pretende pôr tudo isso a perder.

Com o conhecimento do ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, o comando da Polícia Federal em Brasília está investigando sigilosamente os delegados e agentes envolvidos na Operação Lava-Jato. VEJA teve acesso a informações de uma sindicância aberta pela Corregedoria da PF e conversou com policiais que acompanham e participam da apuração. É preocupante. Segundo os corregedores, o procedimento foi instaurado para apurar “ilegalidades” praticadas pelos colegas do Paraná, onde estão centralizadas as investigações do escândalo da Petrobras. Que “ilegalidades” seriam essas? Os federais de Brasília investigam os paranaenses por supostamente terem instalado escutas para captar clandestinamente conversas de presos e dos próprios policiais. Uma dessas escutas foi descoberta na cela do doleiro Alberto Youssef, uma das principais testemunhas do esquema de corrupção. Em abril do ano passado, o doleiro encontrou um transmissor de voz escondido sobre o forro do teto de sua cela. Os corregedores apuram denúncias de que os delegados da Lava-Jato teriam colocado o aparelho para obter provas por meio de métodos ilegais. Parece grave — e é —, principalmente pelo que aparenta estar na gênese da investigação. “Isso vai provocar a anulação de toda a Operação Lava-Jato”, diz, sob a condição de anonimato, um delegado ligado ao caso. “A situação vai ficar feia. Vai aparecer mais coisa”, advertiu em entrevista na tarde da última quarta-feira.

Na quarta-feira à noite, perto das 20 horas, dois policiais encontraram — por acaso — um novo aparelho de escuta na sede da superintendência do Paraná, dessa vez escondido na luz de emergência do fumódromo usado pelos agentes da Lava-Jato. Na mesma quarta-feira, só que no fim da manhã, o ministro da Justiça tinha uma audiência marcada com o delegado José Alberto Iegas, até março deste ano o chefe do Departamento de Inteligência da Polícia Federal (DIP). Formalmente, o assunto registrado na agenda era “um projeto do ministério para a região de Foz do Iguaçu”. O delegado foi atendido por Marivaldo Pereira, o número 2 da pasta. O ministro não pôde participar da reunião devido a um compromisso externo. Perguntado, o delegado confirmou que conversou sobre um projeto do ministério na região da Tríplice Fronteira e também sobre a investigação da corregedoria. Ainda nessa quarta-feira, ele também esteve com o diretor da Polícia Federal, Leandro Daiello, para tratar dos mesmos assuntos. À noite, a nova escuta foi encontrada por acaso, embora em Brasília já houvesse gente sabendo que iria “aparecer mais coisa”.

O delegado Alberto Iegas tem tudo e nada a ver com a investigação da Corregedoria da PF. Embora não participe formalmente do caso, ele é amigo, parceiro e o fiador da principal testemunha do caso, o agente que denunciou a existência das escutas. Dalmey Fernando Werlang, até semanas atrás, integrava o núcleo da Operação Lava-Jato. De repente, ele rompeu com o grupo e passou a acusá-lo de ilegalidades.

Dalmey é um especialista em operações de inteligência, e a peça-chave de uma história que envolve traição, espionagem e suspeitas de corrupção policial — convergindo para uma ação paralela que, declaradamente, tenta minar a Lava-Jato. Dalmey prestou um depoimento em 4 de maio passado acusando os delegados da Lava-Jato de terem mandado plantar a escuta na cela do doleiro Alberto Youssef. O agente afirma que foi ele próprio quem instalou o aparelho, clandestinamente, por ordem dos delegados da Lava-Jato. Às declarações de Dalmey se soma um segundo depoimento, prestado pelo delegado Mário Fanton, também oriundo da Lava-Jato. Por ordem do diretor-geral da PF, os testemunhos do agente e do delegado deram origem a uma investigação interna. A partir dos depoimentos da dupla, a Corregedoria-Geral da Polícia Federal, responsável por apurar desvios cometidos por integrantes da corporação, abriu um inquérito e, na semana passada, dois delegados foram enviados para investigar a conduta dos colegas que estão no comando da Lava-Jato. Por ordem de Brasília, computadores da superintendência foram lacrados e apreendidos pelos delegados da corregedoria, que também foram orientados a tomar o depoimento de todos os policiais que atuam na Lava-Jato. O objetivo é comprovar que a operação, como já se tentou falar muitas vezes, estaria repleta de irregularidades.

A corregedoria investiga também a “suspeita” de que o resultado de uma sindicância feita pelos policiais do Paraná para tentar apurar as responsabilidades pela espionagem na cela de Alberto Youssef teria sido forjado para proteger os envolvidos. E explicita mais um exagero: a sindicância teria sido forjada com o aval do juiz Sergio Moro, que conduz os processos da Lava-Jato. “O Moro chancelou uma sindicância irregular”, disse a VEJA um delegado que trabalha no caso. No comando da PF em Brasília, chegou a ser discutido o afastamento imediato do superintendente de Curitiba e dos delegados encarregados da Lava-Jato. Temendo a repercussão política da medida, porém, optou-se por aguardar o resultado do trabalho da corregedoria. Oficialmente, o discurso é outro. Leandro Daiello, o diretor-geral da PF, afirmou a VEJA que não há “razões legais, processuais ou administrativas” para o afastamento dos delegados da Lava-Jato.

O caso ganha contornos ainda mais intrigantes quando se vai ouvir os policiais paranaenses. Descobre-se, em Curitiba, que lá existe uma investigação interna para apurar a venda de informações. No ano passado, a força-tarefa que investiga o escândalo da Petrobras desconfiou que detalhes reservados do caso estavam sendo repassados aos investigados. Um inquérito examina essas suspeitas, que vão de vazamentos da operação a venda e a produção de dossiês contra os investigadores da Lava-Jato. Há nomes de empreiteiras, advogados e policiais que fariam parte desse esquema. Um delegado e um agente, cujo nome é mantido em segredo, já foram apontados como suspeitos. Os federais do Paraná não têm dúvidas. As ações representam um conjunto de interesses que convergem para o mesmo ponto: a tentativa de comprometer a Operação Lava-Jato. O grupo investigado é, de acordo com a apuração, movido por diferentes interesses. Alguns de seus integrantes estariam empenhados em coletar indícios de irregularidades na Lava-Jato para negociar essas informações com os investigados, outros seriam movidos por interesses políticos ou por mera disputa de poder, e outros ainda — os mais ardilosos — enxergam a oportunidade de salvar da cadeia os amigos, os aliados políticos ou parceiros.

A prova de que há algo realmente muito estranho é que existe um relatório do próprio agente Dalmey que desmente o agente Dalmey. Em maio do ano passado, um mês após a descoberta da escuta na cela de Youssef, o policial garantiu que o aparelho encontrado estava na carceragem havia anos e que já nem tinha mais condições de funcionar. Fora colocado lá por ordem judicial, quando estava preso o traficante Fernandinho Beira-Mar — e depois desativado. Sobre Alberto legas não pairam suspeitas de negociação de informações, mas ele é apontado, por exemplo, como amigo do ex-deputado petista André Vargas, hoje preso, e também é próximo de outros personagens envolvidos nas negociações de dossiês. Além disso, estaria movido pela disputa de poder: ele é desafeto dos atuais chefes da Polícia Federal em Curitiba e teria interesse, portanto, em derrubar o comando da superintendência — e, por tabela, os delegados encarregados da Lava-Jato. “Sempre tive uma carreira ilibada, sem nenhuma mácula, e qualquer suspeita contra mim me deixa indignado”, defende-se o delegado Iegas.

Em privado, delegados próximos da cúpula da Polícia Federal admitem que o objetivo da “operação paralela” é carimbar a Lava-Jato com suspeitas de irregularidades — o que, fatalmente, abriria caminho para questionamentos judiciais sobre a operação e poderia resultar, em última análise, em sua anulação. Para o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Carlos Velloso, ainda que se comprove a suspeita de que teria havido interceptação ilegal na Lava-Jato, isso não seria suficiente para desqualificar toda a operação. “Se essa prova paralela não representa o início da investigação, então ela é declarada nula, sem prejudicar as demais provas”, diz o ex-ministro. Para o delegado aposentado Jorge Pontes, ex-diretor da Interpol, o jogo está claro: “A minha suspeita é que haja um grupo de pessoas já cooptadas para tentar minar e comprometer a Operação Lava-Jato. Neste momento em que a sociedade brasileira tem uma expectativa histórica de que o país deixe de ser vítima de corrupção institucionalizada, isso aí é uma tentativa da corrupção institucionalizada de criar no seio da polícia uma contenda que tem a intenção de jogar alguma dúvida sobre essa investigação”.

Com reportagem de Alexandre Hisayasu

A solução que vem do mar

Com a maior seca em décadas, a Califórnia investe 1 bilhão de dólares em uma usina para tornar a água marinha potável. Seria uma saída para o Brasil?

Mariana Barros

Diante da seca que transformou campos de golfe e os outrora verdejantes jardins de Beverly Hills em plantações de cactos, a Califórnia — o estado mais rico do país mais poderoso do mundo — resolveu buscar no mar a solução para a falta de água. Até o fim deste ano, a usina de dessalinização que está sendo erguida em Carlsbad ao custo de 1 bilhão de dólares será a maior do Ocidente, com capacidade de produzir 190 milhões de litros de água potável por dia. A tecnologia para tornar a água do mar própria para consumo existe há mais de quarenta anos. Em alguns lugares desérticos, como Israel, a água dessalinizada responde por cerca de 80% do abastecimento total. No Kuwait, toda a água potável é fruto de dessalinização. Nos Emirados Árabes, a taxa é de 97%. Segundo a Global Water Intelligence (GWI), a dessalinização produz em torno de 80 bilhões de litros por dia no mundo, volume capaz de atender às necessidades de 10% da população do planeta.

O problema, no passado como no presente, é o preço. Toda a produção da usina da Califórnia, por exemplo, será suficiente para abastecer não mais que 8% da população de 3,3 milhões de pessoas de San Diego, que será beneficiada pela sua construção. Em São Paulo, ela atenderia apenas um bairro como Sapopemba, na Zona Leste. O custo da água dessalinizada já caiu para menos da metade, mas continua salgado. No início dos anos 1970, para transformar um único galão (3,7 litros) de água do mar em água potável gastavam-se 9 dólares (27 reais). Hoje, pagam-se 4 dólares — quase seis vezes o necessário para tratar a água que chega às torneiras dos paulistas (0,65 dólar o galão).

Mas, como é melhor pagar caro pela água do que ficar sem ela, a dessalinização é uma alternativa para quando todas as outras fontes secarem. “Funciona como uma apólice de seguro caso os reservatórios baixem demais”, resume o economista e especialista em água Gesner Oliveira. Em San Diego, onde a conta média de água de uma família é de 75 dólares, o preço deve aumentar outros 5 para bancar a nova usina de dessalinização. Mesmo sem ela, a conta dos moradores da região já está entre as mais caras do país, dado que mais de 80% da água usada em San Diego vem de um aqueduto de 400 quilômetros que parte do Rio Sacramento, ao norte.

A Califórnia está praticamente sem chuvas há quatro anos. No mês passado, o governador anunciou um corte obrigatório de 25% do gasto de água em todo o estado. Em áreas com consumo mais alto, como o milionário bairro de Beverly Hills, o talho será ainda mais profundo. Lá, a economia terá de ser de 36% — e o consumidor que não conseguir atingir a meta estará sujeito a multas de até 1000 dólares.

Em 1992, o estado já havia implantado uma usina de dessalinização em Santa Bárbara para driblar uma grave estiagem. Durou pouco. Assim que as chuvas voltaram, o funcionamento foi suspenso por causa do seu alto custo. Com a nova seca, as autoridades estudam não só reativar a usina como construir outras duas, além da de Carlsbad — em Huntington Beach e em Monterey. Se a ideia prosperar, a Califórnia terá quatro usinas funcionando na próxima década.

A “solução californiana” pode parecer sedutora para São Paulo, a maior e a mais rica cidade do país, onde há meses os moradores convivem com torneiras secas e boletins diários sobre os níveis do volume morto. Mas aqui haveria outro obstáculo, além dos altos custos do processo: mais caro do que tirar o sal da água do mar é levá-la morro acima — e a capital paulista está localizada a longínquos 760 metros acima do nível do mar. “Para cada 400 metros de altitude que precisam ser vencidos, o custo de distribuição dobra”, diz Renato Ramos, diretor de Negócio de Águas para a América Latina da Dow Química.

Um estudo feito pelo banco BTG em parceria com a empresa FM Rodrigues e a espanhola Axioma analisa os prós e os contras de instalar uma usina na Baixada Santista e conduzir essa água até a capital. Dados preliminares já foram apresentados ao governo estadual. Se um dia o estudo virar realidade, essa água custará o dobro da água mais cara que abastece hoje a capital — a que vem do Sistema São Lourenço, em Ibiúna, a 83 quilômetros da cidade. O preço seria pago por todos os consumidores da Sabesp.

De acordo com o secretário de Saneamento e Recursos Hídricos do governo paulista, Benedito Braga, trata-se de investimento alto demais para ser usado apenas em períodos sem chuvas. “A dessalinização faz mais sentido para o abastecimento de cidades litorâneas”, diz ele. “Para a capital, há outras alternativas a ser exploradas.” As principais são o reúso (reciclagem do que já escoou pelo ralo) e a captação de rios da Serra do Mar, como o Itapanhaú e o Alto Juquiá. Esse último já vem sendo tratado com a Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb). Embora o uso da água desses rios também dependa de tubulações e bombas para chegar à capital, a altitude a ser vencida é de cerca de 200 metros, dois terços menos do que seria necessário ultrapassar para pegar água do mar.

Especialistas afirmam, entretanto, que no médio prazo a dessalinização pode ser uma solução para cidades como o Rio de Janeiro, que também conviveu com uma ameaça de racionamento no começo deste ano. Em fevereiro, o governador Luiz Fernando Pezão disse que estudava implantar uma usina de dessalinização na Zona Oeste da capital fluminense, por meio de uma parceria público-privada.

De acordo com John Lienhard, Ph.D. em dinâmicas fluidas e diretor do Centro para Água e Energia Limpas do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), a escassez de água tende a se agravar no mundo todo. “Até 2050, haverá 2 bilhões de pessoas a mais no planeta e a quantidade de água se manterá a mesma”, afirma. Para alimentar tanta gente, será preciso produzir 70% mais comida do que hoje. Além da agricultura, o maior destino da água disponível, a produção de 1 quilo de carne, por exemplo, gasta o equivalente a quinze caixas-d”água de 1000 litros.

A agravar esse quadro, está a estiagem em escala global identificada pela Nasa em um estudo divulgado no início deste ano. Segundo a agência espacial americana, algumas áreas do planeta, que abarcam partes dos Estados Unidos, da China e da América do Sul, estão sendo atingidas por uma seca persistente, sem previsão de término. Junte-se a isso o fato de o ano passado ter sido o mais quente desde o início das medições pela agência, em 1880, e a conclusão óbvia é que nenhuma alternativa para captação de água pode deixar o horizonte dos países — ao menos enquanto as nuvens de chuva teimarem em não aparecer por lá.

Credito: Revista Veja 17/05/2015

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