Um fado tropical: precariedade e lutas sociais no sul global

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Em julho de 2013, ainda sob o efeito das rebeliões sociais que tomaram de assalto as ruas das principais cidades brasileiras, Ruy Braga, sociólogo e professor da Universidade de São Paulo (USP), aventou a tese de que o país havia ingressado no ritmo do sul da Europa, em que as temporalidades da crise econômica e da crise política apresentavam-se sincronizadas. Em sua interpretação, um estado de inquietação social havia sido produzido entre nós. À época, muitos analistas puseram em dúvida essa hipótese, apoiando-se na alta popularidade de Dilma Rousseff, no mercado de trabalho aquecido e na capacidade de consumo da classe trabalhadora.

No entanto, o tempo presente, marcado por inúmeros desacordos entre a base aliada e o governo federal, por cortes orçamentários, ajustes fiscais, universidades em greve e por um aumento crescente no número de consumidores inadimplentes, poderia suscitar conjecturas em torno das habilidades premonitórias do autor. Sua visão acurada, entretanto, não está apoiada em qualquer dom metafísico. Ao contrário, a sensibilidade e a perspicácia de Ruy Braga para a análise social se fundamentam em uma tradição do pensamento sociológico brasileiro cuja natureza se caracteriza pela criticidade, reflexividade e compromisso com a luta das classes populares.

Uma bela demonstração desse modo de fazer sociologia pode ser encontrada no mais recente livro do autor. A obra reúne artigos publicados em diversas mídias, entre os anos de 2013 e 2014, além de alguns resultados de uma pesquisa em andamento que compara Brasil e Portugal sob o ponto de vista da precarização do trabalho e da mobilização social e sindical.

Como sugere o próprio subtítulo, Ruy Braga explora na obra a relação entre as transformações recentes no mundo do trabalho, o avanço da condição de precariedade sobre a força de trabalho e “o início de um novo ciclo de rebeliões sociais no chamado sul global”. O texto está divido em quatro seções que, a julgar pela ordem em que foram expostas, pretendem reconstruir a trajetória das tensões sociais que abalaram parte dos países de capitalismo periférico nos últimos anos: impaciência, inquietação, indignação e estilhaços.
Alguns artigos merecem destaque especial. Os dois primeiros ensaios, que versam sobre a condição de crise e luta dos trabalhadores em Portugal, sobressaem pela riqueza das informações a respeito da sociedade lusitana e pelo debate travado em torno da categoria de precariado. A parte inicial do livro se encerra com uma ótima análise sobre o “legado contraditório” do líder sul-africano Nelson Mandela. Em seguida, o autor esboça uma hipótese explicativa – e polêmica – para o desempenho de Celso Russomano no primeiro turno da eleição para a prefeitura de São Paulo em 2012. Outro ponto alto do livro é uma entrevista em que Ruy Braga reitera a necessidade de uma reforma da CLT que garanta, ao contrário das vozes do mercado, mais liberdade sindical e mais direitos aos trabalhadores.
Ruy Braga é, atualmente, um dos principais expoentes da crítica ao regime de acumulação pós-fordista e financeirizado no Brasil. Seu trabalho se orienta por um materialismo histórico-dialético vigoroso, que o coloca na vanguarda da sociologia do trabalho no país. Por outro lado, o livro traz consigo a vantagem de analisar o processo de esgotamento do modo de regulação lulista na linguagem de uma autêntica sociologia pública. São belas “crônicas gramscianas” que, algumas vezes, nos assustam com tamanha lucidez.

A leitura é indispensável para aqueles que se interessam pelo desenvolvimento contraditório do capitalismo contemporâneo no Brasil – e muito cativante para aqueles que apreciam uma boa peça de ciência social engajada.

Resenha do livro ‘A pulsão plebeia: trabalho, precariedade e rebeliões sociais’. Ruy Braga. Ed. Alameda, 2015, 358p.

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