Quem é dono da bola em economia?

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Economia

  • Se você já parou para ler o caderno de economia de algum grande jornal deve ter se deparado com a dificuldade que é compreender muitos dos processos que são descritos ali. Entre quedas e subidas das bolsas de valores e do preço do dólar e a abundância de termos como derivativos e ativos financeiros, quase não dá tempo de parar e perguntar: afinal, quando é que um tema tão importante quanto a economia se tornou tão complexo, para não dizer hermético? Isso ficou muito claro com a crise de 2008, cujos efeitos foram sentidos pela maioria da população mundial, mesmo aqueles que não faziam ideia do que é um crédito subprime.

    Para Luiz Alberto Machado, vice-diretor da Faculdade de Economia da Fundação Armando Álvares Penteado (FAAP), a explicação está no processo de financeirização da economia, que se acelerou com a globalização. “Isso acelerou violentamente a velocidade da moeda e permitiu a criação de instrumentos financeiros cada vez mais sofisticados mas realmente de difícil compreensão pras pessoas não iniciadas. É parte do processo da evolução do capitalismo”, opina Machado.

    Rodrigo Castelo, professor da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio), opina que não há dúvida de que as transformações da base material do capitalismo nas últimas décadas são parte desse processo, mas há de se levar em conta também os impactos ideológicos que essas transformações tiveram. “Cada vez mais as análises da economia são baseadas somente nos fenômenos aparentes da economia, os fenômenos da circulação, sem ver a perspectiva de totalidade entre produção, consumo, troca e distribuição. Hoje a grande mídia trabalha com a ideia de mercado e não com a de capital”, afirma Castelo. Para ele, isso é um reflexo da hegemonia ideológica de uma forma de pensar a economia cujas origens remontam ao século 19, com a chamada escola marginalista, também chamada de neoclássica.

    Reação burguesa

    A emergência da escola neoclássica, segundo a professora Maria Malta, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), marca o momento em que a produção do conhecimento econômico dá uma guinada em favor de uma perspectiva em que o mercado ocupa cada vez mais o centro da análise, se distanciando do que até então era chamado de economia política, de autores como Adam Smith, David Ricardo e Karl Marx. Estes são os primeiros a desenvolver a ideia de que a distribuição da riqueza no capitalismo se dá por meio da disputa entre classes com interesses antagônicos. “Quando o Ricardo coloca essa questão, já havia começado a organização dos movimentos dos trabalhadores na Europa, que estavam se vendo premidos por uma forma de viver e produzir que os estava destituindo de tudo”, explica Malta, complementando: “Na hora em que você evidencia essa disputa pela riqueza entre as classes sociais, você coloca no jogo analítico a necessidade de respostas da classe dominante em relação àquela ciência, que começa a revelar um conflito que coloca em questão o próprio sistema”. Se de um lado, Marx desenvolve a ideia de que o sistema de produção deve ser orientado pelos critérios de quem produz, os trabalhadores, do outro lado há a reação da burguesia, através da obra dos autores neoclássicos. “Esses autores vão começar a utilizar um instrumental matemático e estatístico para dar o que eles chamam de corpo científico para o argumento econômico de que cada um recebe de acordo com a sua produtividade. Então se você é pobre é porque produz pouco, se você é rico é porque produz muito e contribui muito. Era a constituição de um discurso de justificação ideológica do capitalismo num formato científico”, afirma Malta.

    Em paralelo à aplicação cada vez maior de ciências exatas, como a matemática, a emergência da escola neoclássica, marca também um afastamento gradual da economia da política, segundo Rodrigo Castelo. “A economia política, na definição de Adam Smith, era uma ferramenta para o estadista prover uma renda ou manutenção farta para a população e prover o Estado ou a comunidade de uma renda suficiente para os serviços públicos. Já para os neoclássicos, o mercado não precisaria da intervenção do Estado para a sua atuação na produção e alocação dos recursos, que seriam bem distribuídos a partir de uma produção da livre concorrência”, diz Castelo. A partir daí, os caminhos são dois, explica Maria Malta: “um é a tentativa de construir com os trabalhadores, mais do que explicar, a sua possibilidade de transformação social e obtenção do poder social e econômico. Do outro lado, há a tentativa de justificar a destituição dos trabalhadores desse papel. E para garantir que o trabalhador não entenda nada você começa a produzir uma economia que seja ininteligível mesmo”. Segundo ela, durante todo o século 20 são essas duas vertentes que vão nortear a produção do conhecimento econômico.

    Ortodoxos e heterodoxos

    O debate sobre Estado e mercado está na origem da divisão que existe até hoje na classificação do pensamento econômico entre ortodoxos e heterodoxos.  “A visão ortodoxa acredita que deve haver uma predominância do mercado em relação ao Estado, entre eles os neoclássicos. A heterodoxia, como o keynesianismo ou o marxismo, atribuem um peso maior para o Estado em relação ao mercado”, explica Luiz Alberto Machado. Maria Malta, por outro lado, questiona essa divisão entre as escolas do pensamento, que segundo ela reflete a ideologia dominante. Ela chama a atenção para o fato de que o prefixo orto significa correta e doxa, opinião. Ou seja, o pensamento econômico que enfatiza o mercado e que vê o capitalismo como um sistema que produz bons resultados é a “opinião correta”. “Do outro lado, heterodoxia significa ‘a outra opinião’. Então é a opinião correta e a outra”, destaca Malta, e completa: “Aí todo o resto cabe dentro da heterodoxia, desde Keynes, que defende uma intervenção do Estado no mercado, mas para defender o capitalismo, até os marxistas, que tem uma visão completamente contrária ao sistema capitalista. A heterodoxia fica um saco de gatos”, afirma.

    Disputa acadêmica

    Mas hegemonia não significa pensamento único, como ressalta Castelo. Segundo ele, no Brasil, os economistas heterodoxos ainda ocupam espaços importantes na academia. “Aqui no Brasil os setores desenvolvimentistas ainda tem presença aqui e ali, e os próprios marxistas tem uma presença forte em torno da Sociedade Brasileira de Economia Política”, afirma. Entretanto, diz o professor da Unirio, grande parte dos recursos para pesquisa são direcionados para estudos com fundamentação neoclássica. “Além de toda a ideologia que fundamenta a grande mídia”, completa. Maria Malta lamenta uma “perda de autenticidade” do pensamento econômico produzido no Brasil a partir da década de 1990. “No Brasil a gente teve movimento forte a partir das formulações do Celso Furtado, da teoria da dependência, do capitalismo tardio, que são mais autônomas do ponto de vista crítico. Tínhamos uma tradição de valorizar esse processo de entendimento, que tem a história como referência. E a gente foi perdendo isso, em especial dos anos 1990 para cá, com as escolas se tornando cada vez mais ortodoxas, inclusive usando manuais americanos para o ensino da economia”.

    Menos Marx, mais Mises

    Reflexo da disputa em torno da hegemonia do pensamento econômico nas universidades brasileiras foi o slogan “Menos Marx, mais Mises”, que tem aparecido em adesivos colados nas paredes de algumas instituições públicas. O ex-colunista da Revista Veja, Rodrigo Constantino, celebrou em seu blog a iniciativa de alunos da Universidade Federal Fluminense (UFF), “antro de esquerdistas”, segundo ele. “Se as pessoas lessem o Mises iam ficar tão horrorizadas que não diriam isso. Porque ele é um autor de uma época em que a direita dizia exatamente a que vinha e o que ela pensava do povo. Então ele coloca completamente a responsabilidade sobre seu próprio destino na mão do indivíduo. Ele diz: você é assim porque não tomou as atitudes corretas, na sua história, na sua família. Ele privatiza o resultado da sua vida”, explica Maria Malta. Segundo o professor da Faculdade de Economia da UFF, André Guimarães, Ludwig Von Mises fez, em seus textos, inclusive apologia do fascismo. Eis um trecho de uma obra dele traduzida por André: “Não se pode negar que o fascismo e movimento similares visando o estabelecimento de ditaduras são repletos das melhores intenções e que suas intervenções têm salvo a civilização europeia até agora”.

    Quem paga a banda escolhe a música

    Mas se no campo acadêmico ainda há espaço para disputa, o domínio da ortodoxia neoclássica na esfera da política econômica é total. “A prática da política econômica não tem muitas pretensões de se disfarçar com teorias. Mesmo os economistas heterodoxos que entram para a política vão se adaptar a realidade concreta, isso em toda parte. A política econômica responde aos interesses de quem manda no governo”, argumenta Ramon Peña, professor-pesquisador da Escola Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio (EPSJV/Fiocruz). Rodrigo Castelo dá o exemplo do presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Luciano Coutinho, que é um economista heterodoxo, do chamado neodesenvolvimentismo. “Ele é quem toca a política das campeãs nacionais, que foi a formação dos grandes conglomerados transnacionais brasileiros que operam internamente expropriando povos indígenas, camponeses, quilombolas, pequenos agricultores, nas suas atividades de promoção do agronegócio no Brasil e promovendo a exploração e expropriação de bens primários de povos tradicionais na América Latina e na África. Em nenhum momento teve realmente uma disputa efetiva para reduzir o poder das frações rentistas do capital. Muito pelo contrário”, afirma Castelo.

    Para o professor da Unirio, parte da dificuldade em entender os processos econômicos hoje tem origem nesta hegemonia do pensamento neoclássico ortodoxo sobre o debate econômico, bem como do alijamento dos trabalhadores dos processos de acumulação de capital sobre os quais a teoria hegemônica se debruça. “Para a teoria neoclássica, quem se apropria melhor do mercado é aquele que tem melhor capacidade de produzir riqueza, indivíduos dotados de ‘capital humano’ que podem trabalhar e abocanhar um maior quinhão da riqueza produzida. Só que eles estão descrevendo o mundo das finanças, que está intimamente ligado a capacidade de extração da mais-valia da classe trabalhadora, por mais que eles digam que não”, diz Castelo. O problema, completa ele, é quando essa maneira de descrever os processos econômicos se universaliza, a partir do domínio político dessa fração da burguesia. “Esses elementos matemáticos servem para fazer o cálculo de maximização de lucros, de extração de mais-valia dos trabalhadores para alguns setores da sociedade que têm excedente de renda e precisam calcular onde vão alocá-la. Mas para a classe trabalhadora isso nem se coloca, porque nós, enquanto classe, precisamos gastar tudo o que ganhamos, não temos excedente para investir”, conclui.

    Matéria publicada na Revista Poli Nº 42, de setembro a dezembro de 2015

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