Toda a Verdade do Caso Celso Daniel – Livro de Romeu Tuma Jr. (Capítulo Inédito)

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Dois caminhos guiarão minha narrativa do caso. Quero enveredar, primeiro, por minhas expansões emocionais mais íntimas. Mais à frente serei técnico, ou seja: entrará em cena o delegado. Mas agora vamos pelas confissões de um cidadão que, mesmo exilado, teve nas mãos duas batatas quentes, aliás, o sonho de todo profissional de polícia: dois enigmas dos diabos conectados ao PT. Dionísio, o sacripanta contratado para matar Celso Daniel, fugiu de uma cadeia em Guarulhos de helicóptero e pousou bem na minha circunscrição, onde eu fora isolado. O caso era meu e ninguém tascava. Depois, mataram o Celso Daniel também em meu território legal: fui o primeiro a chegar à cena do crime.

E tudo começou quando eu era o delegado Seccional Sul da cidade de São Paulo e passei a investigar a máfia dos fiscais, descoberta em 1998, na gestão do prefeito Celso Pitta. Vereadores e funcionários municipais foram acusados de cobrar propinas de ambulantes e comerciantes nas antigas administrações regionais (as atuais subprefeituras). Segundo o Ministério Público, o grupo conseguiu arrecadar, ao longo de 15 meses de atuação, R$ 15,9 milhões – tudo com propina paga pelos ambulantes.

Voltando: estou investigando essa máfia até que, um dia, me cai nas mãos o Carlos Meinberg, secretário do governo Pitta eex-presidente do Banespa. Isolado, Celso Pitta estava levando para sua administração quadros recrutados no PMDB, como o seu secretário de governo, Carlos Meinberg, que assumiu seu cargo na prefeitura de São Paulo em novembro de 1998. A corrupção corria solta: a máfia dos fiscais faturava cerca de R$ 30 milhões por mês, dinheiro advindo da tunga contra lojistas e camelôs.

Em meados do ano 2000, numa reunião a que fui convocado às pressas, a cúpula da Polícia Civil pressionou-me para não indiciar o Meinberg. Saí da sala de meus superiores e voltei para o Dird – o departamento que centralizava as investigações contra funcionários públicos, vereadores e prefeitos, onde a imprensa inteira estava esperando para eu ouvir o cara. Então eu chamo o Meinberg na frente de toda mídia.

Ele entra na sala, hirto. E eu falo que não vou ouvi-lo. “Olha, vou indiciá-lo, e tem uma pressão da cúpula para que não faça isso. Eu vou me afastar da investigação; então, pensando bem, não acho justo nem te ouvir, nem te indiciar”. E designei para o meu lugar o meu assistente, que passou a presidir o inquérito, o Dr. Maurício Correali.

O Correalinho, como os mais antigos o chamavam por conta de seu pai – o saudoso delegado Sérgio Paulo Correali, que me legou, ainda em vida, que “encaminhasse” o filho na instituição

– era uma figura franzina que aparentava fragilidade, entretanto muito mais novo e mais duro que eu. Um “caneta nervosa”, como nos referimos aos bons delegados técnicos. Sofreu mais pressão que misto quente em sanduicheira caseira. Enquanto estive lá, segurei firme com ele e denunciei publicamente. No fim, indiciou não só o Meinberg mas o Pitta também.

Liguei para meu pai e contei que estava saindo da investigação devido à pressão tucanoide. Graças à máfia dos fiscais eu estava sofrendo até ameaça de morte. Um dia fui ao gabinete

falar com o secretário da segurança pública, Marcos Vinícius Petreluzzi. Disse a ele: “Secretário, não temos estrutura, precisamos de gente. Pô, estamos investigando a máfia dos fiscais, que já tentaram investigar uma vez e não conseguiram. É um jogo muito pesado”. Ele respondeu: “Aqui não é o Muro das Lamentações”.

Veja: você é delegado de polícia, dedicado, e chega no secretário de Segurança, informando que não há estrutura, e ele te responde que ali não é o Muro das Lamentações! Talvez Petreluzzi visse o que não era verdade: eu estaria indiciando o Meinberg por ele ser tucano e eu, petista. Mas eu estava sendo apenas um profissional de polícia – como sempre, aliás. E havia mais: ele, o secretário, também tinha muitos amigos petistas, como o próprio Zé Eduardo, hoje ministro da Justiça. Suas esposas eram colegas do MP de São Paulo. Zé Eduardo tentou interceder a meu favor, mas não teve jeito. A ideia era esvaziar a investigação.

Saí do caso da máfia dos fiscais e fui exilado para comandar a delegacia de Taboão da Serra. E me cai do céu, ou do inferno, nas mãos, o caso Celso Daniel.

Lembro que o Tumão me ligou querendo detalhes da remoção. Vamos ao cenário que envolvia o Tumão de então. Eles, na seara política, estavam fazendo um acordo em que Tumão iria ser candidato a viceprefeito do Alckmin (uma coligação do PFL com o PSDB) em São Paulo. Eu sei que, ao me mandarem embora da cidade, me afastando da investigação daquela forma, o velho Tumão ligou para o Mário Covas e disse: “Por conta dessa sacanagem contra meu filho, eu rompo o acordo e vou ser candidato a prefeito. O que estão fazendo com o meu filho? Isso é um absurdo. Vocês estão pensando que ele é quem? Vou ser candidato a prefeito e não vou ganhar a eleição, mas vocês também não vão. O PT vai ganhar essa eleição, eu vou

enfrentar vocês”. Covas, o espanhol, deve ter parido o cólon de ódio.

E Tumão saiu candidato na marra, rachou o acordo que eles tinham. Saiu ele, o PFL, com apoio do PMDB; saiu o Alckmin pelo PSDB; Maluf, Marta. No fim, o velho tirou o Alckmin do segundo turno por 5 mil votos. E a Marta ganhou a eleição. E eu fui parar de castigo em Taboão da Serra, na delegacia Seccional.

Lá fui muito bem recebido pela população. Baixei a criminalidade da região. A Seccional de lá tem o mesmo tamanho territorial da de São Paulo. Os policiais que estavam lá, a maioria era de castigo, abandonados; o cara que pegava aquilo tratava de Embu, Juquitiba, Itapecerica da Serra, São Lourenço da Serra, Embu das Artes e Embu Guaçu: um universo periférico formidável.

Cheguei lá com um grande apetite, com disposição de mostrar a eles quem eu era. Virei o jogo, nos tornamos a melhor Seccional do estado de São Paulo. Os bandidos, os prefeitos, alguns vinham me falar que tinha cara instalando a boca de fumo e nego avisava: ‘Vem o Tuma para cá, vamos embora, volta para São Paulo”.

O tempo passou e eu saí de lá eleito deputado estadual pelo PPS. E só na região fiz perto de 20 mil votos. O Partido Popular Socialista saiu sozinho, sem coligações. Quem me falou que eu tinha que ser candidato foi o Ciro Gomes, nosso candidato a presidente naquela eleição, e então um companheiro que eu admirava muito.

Voltando ao meu exílio político: tive que morar na divisa de Campo Limpo com Itapecerica, sozinho, lá na “bocada”, correndo o risco de ser morto. Mas tudo bem: aluguei uma casinha e fui morar em Campo Limpo. Eu fui transferido em julho/agosto de 2000, separeime da esposa no fim desse ano, fiquei longe das minhas filhas, a mais nova era pequenininha, um drama.

Eu praticamente vivia na delegacia porque não tinha mais família; só ia ver minhas filhas de vez em quando. Elas ficavam comigo na administração da cadeia, vendo tudo. Foi uma época difícil, não gosto nem de lembrar.

Conheci minha atual mulher lá. Ela era delegada no Embu e começamos a namorar em 2001, mais ou menos. Eu não saía para nada, não ia a lugar nenhum. Eu não gostava de me expor, é o meu jeito: sou do tipo que fica em casa. Ficava na delegacia até tarde; sempre passei as noites acordado, desde a Seccional Sul, bolando operações policiais e estratagemas para prender criminosos.

No dia 18 de janeiro de 2002, a Luciane, hoje minha esposa, então namorada, me falou: “Vamos à festa de aniversário de um sobrinho meu em São Caetano?”. Eu disse que ia. Minha filha faz aniversário dia 17 de janeiro, e era o dia seguinte ao aniversário dela, datas marcantes. Eu topei, fiz uma média, era começo de namoro. Quando estávamos indo, passamos pela avenida Três Tombos, na área do 26o DP, região que eu conhecia bem pois tinha sido delegado seccional sul. Na volta mudamos de caminho, viemos por outra rua, e caímos na avenida Maria Maluf. Deixei a Luciane em sua casa, no Embu, e voltei para a minha, no Campo Limpo.

No sábado de manhã, ligo a televisão e tomo conhecimento de que tinham sequestrado o prefeito de Santo André, o Celso Daniel: justo o cara que iria ser o coordenador da campanha do Lula, o homem forte dele! Segundo o noticiário, ele estava na avenida Três Tombos, por onde eu passara no dia anterior. Eu tinha passado por lá dez minutos antes dos fatos! Foi na hora em que voltei que eu mudei de rua. “Ai se eu tivesse passado naquela rua”, pensei…

E todo aquele bochicho na televisão, o diabo. Os caras contando tudo na TV, falando sobre o tal carro do Sombra, ao lado

de Celso Daniel. Mas o carro era à prova de balas, uma Pajero gigante, e um carro Santana bordô atacando uma perua importada. Penso eu: “Com um carrão desses, passo por cima do Santana!”

Perto do meiodia, a Globo exibiu uma entrevista com o viceprefeito de Santo André, o João Avamileno. O cara falou que a prefeitura não podia parar, tinha projetos que necessitavam ser levados adiante, etc.

Aí eu comentei: “Eles ainda não sabem nem se foi um sequestro. O negócio ocorreu à noite, não tem notícia de ligação de pedido de resgate, de nada, e o cara fazendo reunião para tocar a prefeitura? Que estranho! Nem sabem ainda se o cara está vivo ou morto, e já marcam reunião para tocar a administração, sem saber o que está acontecendo?”. Meu sexto sentido apitou como um termômetro do peru Sadia.

Quando eram umas 5h30/6h da manhã, mais ou menos, me liga a minha operadora da Seccional de Taboão, a Graça: “Doutor Tuma, me desculpe a hora”. Falei: “Imagina, pode ligar a qualquer hora”. E ela, com voz grave e ansiosa: “O rapaz da funerária ligou informando que tem um corpo lá em Juquitiba, e ele tem uma desconfiança que pode ser esse prefeito que está sumido. Ele acha que pode ser o cara”. Perguntei onde era isso, em Juquitiba? E emendei: “Peraí, então pede para alguém do Garra já deixar uma viatura ligada na Seccional que estou indo aí para me levarem a esse local”.

Logo depois entrei no meu carro. Em Campo Limpo, peguei a estrada de Itapecerica e saí quase dentro da Seccional de Taboão. Já tinha uma viatura me esperando, e fui para o local do crime.

Cheguei ao km 328 da rodovia Régis Bittencourt, estava ali só o rapaz da funerária, que fazia o papel de rabecão na região de Juquitiba. Quando subimos a estradinha de terra, esse rapaz

me falou: “Eu não conheço ele, doutor”. Aí vi: era o Celso, duro no chão. Fiz fotos que guardo até hoje. Como fui o primeiro a chegar, fiz a identificação oficial. Falei: “É o Celso. Reconheço oficialmente que é ele”. Mataram o cara, e aquilo ia dar uma merda federal. Liguei para a Seccional e confirmei que era mesmo o prefeito. Em seguida comuniquei ao delegado de permanência do Cepol, à central de comunicações da Polícia Civil, o coração da instituição.

O mato ao redor era fresco, verde, um ambiente bucólico. Não era um sumidouro. Quem deixou o corpo ali tinha saída rápida para uma via vicinal, além da Régis Bittencourt, a estrada da Cachoeira. O corpo estava ali para atrair atenção, e assim os malfeitores poderiam ganhar tempo para fugir. No mundo do homicídio muito se usa a materialidade do crime, a desova de corpos, para atrasar a polícia em sua perícia no local.

Vejo a cena diante de meus olhos, agora: o rosto de Celso, as costas, fumegados com tatuagens de cano quente. Antes de darem o tiro de misericórdia, encostaram-lhe a arma fervente na pele. Vejo o corpo e ainda sinto a vibração dessa cena. As mãos, Deus do céu, no formato de um louva-deus, sugerindo a postura de quem reza, de quem implorou pela vida. A boca assumiu um quê monstruoso, desfigurada a bala. Olho para as reentrâncias do mato e tento estabelecer como teria sido a cena da desova. Era o que me parecia naquele primeiro momento, uma desova, pois não percebi sangue suficiente no chão de terra batida para cravar que ele teria sido executado ali, além de achar que, pela posição e suposta trajetória, os estojos dos projéteis espalhados pelo local não pareciam ter sido ejetados de uma arma em ação, mas aleatória e estrategicamente colocados por alguém, objetivando criar uma falsa cena de crime. Ainda a respeito dos projéteis e estojos encontrados no corpo e no local onde ele foi achado, nunca recebi resposta de uma perícia que

requisitei para confrontar aquele material com o apreendido no dia e local do sequestro. Objetivava saber se eram provenientes das mesmas armas.

Após anos, soube pela imprensa que nada de projétil ou cápsulas foi apreendido quando do sequestro. Fico imaginando, um prefeito, num carro potente, à prova de balas, ser parado sem qualquer dificuldade, sem nenhuma ameaça ou tiros e, pior, sem que seu acompanhante, ex-segurança armado, esboçasse qualquer reação… Ele só pode ter sido entregue mesmo.

Minha experiência profissional ensinou-me que sempre deve ser estabelecida uma cumplicidade sigilosa com o cadáver. Sempre miro além de seus olhos apagados, e concebo deliberadamente um monólogo. Sempre digo ao cadáver: “Eu vou lutar para sempre, e encontrar quem fez isso contigo”.

Estou, genuflexo, cabisbaixo, mergulhado no prazer profissional vagamente secreto (que é fazer esse tipo de jura ao morto), quando sou despertado pelo toque do meu celular. É o senador Eduardo Suplicy: “Dr. Tuma, onde o senhor está?” Devolvo: “Senador, estou aqui reconhecendo o corpo do prefeito Celso Daniel. Infelizmente é ele. Mataram”. Aí começou a chegar helicóptero, gente por todos os lados. Chegou a perícia e colocou aquela fitinha preta e amarela, demarcando o isolamento que eu já havia providenciado, posicionando meus policiais. Era dia 20 de janeiro.

O resumo do caso é o seguinte:

Celso Daniel contava 50 anos quando ocupava o cargo de prefeito de Santo André, pela terceira vez. Foi sequestrado na noite de 18 de janeiro de 2002, quando saía da churrascaria Rubaiyat dos Jardins, em São Paulo. O prefeito estava num carro Mitsubishi Pajero blindado, na companhia do empresário Sérgio Gomes da Silva, conhecido também como o “Sombra”. O carro foi perseguido por outros três veículos: um Santana, um Tempra e uma Blazer.

Na rua Antônio Bezerra, perto do número 393, no bairro do Sacomã, Zona Sul da capital, os criminosos fecharam o carro do prefeito. Tiros foram disparados contra os pneus e vidros traseiro e dianteiro de seu carro. Gomes da Silva, que era o motorista, disse que na hora a trava e o câmbio da Pajero não funcionaram.

Os bandidos armados então abriram a porta do carro, arrancaram o prefeito de lá e o levaram embora. Sérgio Gomes da Silva ficou no local, incólume. Nem reação teve, mesmo com carro blindado.

Na manhã do dia 20 de janeiro de 2002, domingo, o corpo do prefeito Celso Daniel, com onze tiros, foi encontrado na estrada das Cachoeiras, no bairro do Carmo, na altura do quilômetro 328 da rodovia Régis Bittencourt (BR116), em Juquitiba.

Antes disso, no dia 17 de janeiro, um preso foi resgatado da cadeia de Guarulhos de helicóptero, uma fuga espetacular. O helicóptero desceu lá dentro, subiram dois presos e foram embora. E esse helicóptero pousou onde? No Embu, na minha área, e nós passamos a investigar. O que esse bandido ia fazer? Matar Celso Daniel, também na minha circunscrição.

Dois raios caíram no mesmo lugar, contrariando as leis da física e o dictum popular. Afastado para Taboão da Serra, por punição, lá me caem nas mãos dois casos singularmente ligados do PT.

As duas batatas quentes ferviam nas minhas mãos: o corpo do Celso Daniel foi encontrado na minha área. E quem comandou seu assassinato tinha fugido de uma cadeia em Guarulhos e pousado de helicóptero também na minha jurisdição. Eu assumia então plena consciência de que era um para-raios, agregan

do, sob o meu poder, a futura cruz e a espada contra o Partido dos Trabalhadores.

Na cena do crime, ao lado do corpo do Celso Daniel, as cápsulas disparadas, como ocorre com as armas automáticas, não condiziam, em seus locais de queda, com a direção dos disparos. Mandei fazer uma retificação da perícia.

Para o governo do PSDB, quanto antes acabasse esse negócio da minha investigação, melhor seria; afinal, eles tinham a esperança de ganhar a eleição; então ajudaram a abafar o caso.

Tudo indica que Celso Daniel morreu porque o achaque do PT contra os empresários de Santo André começou a aumentar. Os empresários não aguentavam pagar essa sobretaxa. Celso Daniel ficou no meio e sobrou para ele.

Tenho razões para crer que os caras sequestraram o Celso Daniel para lhe dar um susto. Pagariam depois o resgate e lhe esfregariam na cara o seguinte bordão: “Salvamos você, você deve moralmente sua vida a nós; então tire o PT da nossa bota, não queremos mais sobretaxa. Leve o recado porque você nos deve a vida”.

Vamos aos fatos de uma semana antes da morte de Celso Daniel.

Em Guarulhos, estava preso um dos maiores sequestradores de São Paulo, o líder do Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade, o CRBC, que é exatamente a facção criminosa que mais tinha seguidores depois do PCC – a única que confrontava com o PCC, era a opositora do PCC.

Lembro-me bem daquele dia. Estava trabalhando quando fui acionado a respeito de uma fuga espetacular, ocorrida na Penitenciária José Parada Neto, em Guarulhos. Na hora do almoço, um helicóptero pousou no presídio e resgatou de lá dois presos. Um chamava-se Dionísio de Aquino Severo; o outro, Ailton Alves Feitosa. O caso foi emblemático. Naqueles tem

pos, a segurança pública estava em xeque: achava-se sequestrado o publicitário Washington Olivetto. E mais essa, agora!

É preciso explicar: por que fui acionado? Por uma razão: o helicóptero pousou num campo de futebol em Embu, que, naqueles tempos, não era oficialmente Embu das Artes, e também era minha área de atuação policial. Minha circunscrição.

Começamos a analisar quem era o Dionísio. Tratava-se de conhecido sequestrador, que falava várias línguas e ainda era piloto de helicóptero. Fiquei intrigado: “Por que razão ele fugira daquela maneira cinematográfica?” Logo no início das investigações, chegaram-me informes de que “Bola” e outros comparsas do Dionísio anunciaram, dias antes, que iriam fazer uma “lança” em dólares. “Lança”, na gíria criminosa, significa uma ação de vulto.

Por que eles teriam pousado no Embu? Essa e outras perguntas tinham de ser respondidas. Prosseguiam as investigações.

Procurei saber quem tinha recebido o Dionísio quando o helicóptero pousou em Embu. Descubro um ex-garçom do Rubaiyat. É a primeira das muitas coincidências. Levanto a ficha do Dionísio. Antes de virar criminoso, sequestrador, ele trabalhou como segurança em Santo André. E quem teve o mesmo início, quem foi segurança na cidade? O Sérgio Sombra, que estava com Celso Daniel na hora do seu sequestro. Aliás, na primeira entrevista que ele, Sombra, concedeu, na própria delegacia, após arrebatarem o prefeito, já virou suspeito. Nesse meio tempo, investigo a fuga do Dionísio e descubro essas coincidências: o Dionísio e o Sombra trabalharam, no passado, como seguranças em Santo André, e o Sombra era empresário do ramo de transporte. Pela minha experiência, eu sabia que “tinha coisa ali”. Não tive dúvidas: havia um vínculo entre a fuga e o sequestro.

A fuga do Dionísio foi armada para ele comandar esse sequestro, que planejou de forma totalmente compartimentado.

Ou seja, quem executava não sabia quem havia planejado. Com qual objetivo? Provavelmente assustar o Celso Daniel. Este iria coordenar a campanha do Lula e queria limpar a área, parar com o “esquema” (de desvio para o bolso do pessoal envolvido com a propina não institucionalizada ou não partidarizada: tudo deveria ir para o partido) para que nada estourasse durante a eleição. Algo como aparar arestas, manter a casa em ordem, não permitir qualquer alteração, inclusive na prefeitura; ninguém deveria se candidatar para não atrapalhar e não degringolar o esquema. Os caras do esquema não concordaram e armaram o sequestro. Passei um tempo à procura do garçom do Rubaiyat envolvido. Não encontrava, mas em uma das buscas achamos um carro, provavelmente usado no sequestro. No porta-malas havia fios de cabelo. O carro estava em uma casa que parecia um cativeiro. Na busca, encontramos dentro da casa um envelope com a marca do Rubaiyat. Ficamos sabendo que pertencia a um ex-garçom do restaurante, que havia sido mandado embora não fazia muito tempo. Descobrimos o endereço onde o cara morava, uma pensão em Pinheiros. Tomamos o depoimento do dono da pensão, que foi dispensado, até porque foi evasivo demais, embora tenha deixado rastros de um detalhe importantíssimo que seria desvendado pouco tempo depois. Ao reler o depoimento, constatamos que o sobrenome do dono da pensão era o mesmo da mãe do Klinger Luiz de Oliveira Souza, um dos secretários de Celso Daniel. Mandei chamar o senhor Paulo, dono da pensão que abrigava garçons de churrascarias, e verificamos que ele era parente do secretário Klinger. Aí o interrogatório foi incisivo. Perguntamos: “Por que o senhor não mencionou esse parentesco?” Ele disse algo como “O senhor não perguntou”. Recapitulando então: os papéis encontrados no cativeiro pertenciam a um garçom do Rubaiyat, que morava em uma pensão de um tio de um secretário

municipal de Santo André, também suspeito de participar do sequestro do prefeito.

E tem gente que costuma dizer que essas evidências – e não simples coincidências – são expressões da minha mais secretamente delirante fantasia.

A cena do crime e os exames

O corpo estava caído numa estrada de terra e fiquei impressionado com a violência. Um tiro na boca tinha estourado todos os dentes. Soube que, além do rapaz da funerária, um morador de um sítio tinha visto o corpo. Instaurei um inquérito imediatamente para ouvir as testemunhas. Tive a sensação de que quem jogou o corpo ali esperava que ele fosse encontrado logo. Mas na sequência não me deixaram conduzir o inquérito, transferido para a Delegacia de Homicídios. Oficialmente, nunca pude obter respostas às várias perguntas que me fiz ao ver o corpo. Solicitei uma perícia da qual nunca vi a resposta – aliás, nem sei se foi feita até hoje – para confrontar as cápsulas das balas encontradas no ponto onde o prefeito havia sido arrebatado com as encontradas no local onde estava o corpo dele. Isso esclareceria muita coisa, inclusive se as armas e os criminosos eram os mesmos. Bem, vamos em frente. Quando tiraram a roupa do cadáver, vi uma coisa que me chamou atenção: ele estava com a cueca invertida, do avesso. E era preciso uma explicação. Ou era uma mania dele, um descuido, ou sinal de que ele teve de se vestir às pressas. E mais: haviam dito que a roupa que ele usava na hora do sequestro era social, e ele foi encontrado de calça jeans. Percebi também uma mancha amarelada, possivelmente, de urina, na cueca, que era branca. Será que o Celso Daniel teria sofrido algum tipo de tortura ou, ao perceber que seria morto ,fez xixi? Tudo isso era importante.

O que isso significaria? Até hoje há controvérsias. Uns dizem que poderia ser uma assinatura ideológica, indicativa de traição. Eu, particularmente, acredito que a vítima estava em outro lugar, onde lhe ordenaram que se vestisse rápido, por alguma razão.

Aliás, o próprio legista que fez o exame cadavérico no corpo do prefeito me confidenciou ter encontrado sinais que poderiam caracterizar violência sexual (fissuras e plicoma anal recentes), fato que até hoje não sei se constou no laudo por conta da pressão que faziam em torno do caso e das investigações. Um outro sinal que poderia indicar muitas coisas. E numa investigação nada pode ser descartado, sob pena da verdade real e factual jamais ser esclarecida.

Mas ninguém observara, até ali não. Eu chamei a atenção do perito, mostrei para o delegado-geral e para o diretor do DEMACRO, Dr. Martins Fontes, meu chefe à época. Recolheram o corpo, e continuei na investigação da fuga do Dionísio.

Num belo dia aparece o (Luiz Eduardo) Greenhalgh. Aproveito e peço a ele para apurar, com a família, se o Celso Daniel tinha a mania de usar a cueca ao contrário; afinal, poderia ser superstição, ou ele teve que se vestir correndo? Ele demorou a responder. Passaram-se dias, perguntei novamente e ele disse que não. Mas a pergunta ficou no ar, não me pareceu que de fato ele havia se informado a respeito.

Ele poderia até estar nu no cativeiro e os sequestradores, ao temerem a chegada da polícia, o tiraram às pressas do local e o mataram. Na nossa investigação estouramos um suposto cativeiro, um local onde se supõe que o Celso Daniel tenha estado. Quando interroguei o Dionísio, ele deixou transparecer que os sequestradores haviam perdido o contato com o esquema, o mandante. Devem ter ficado com medo de a coisa dar errado e serem descobertos, então decidiram executar o prefeito.

Afinal de contas, meu pessoal estava na rua procedendo investigações e realizando buscas na região, o que deixava a bandidagem apavorada. Certamente quem guardava o prefeito sentia a proximidade da polícia. A casa iria cair a qualquer momento, como se diz na gíria, e como de fato caiu.

Dionísio desceu em Embu porque ali era a base da quadrilha dele. Há uma coisa engraçada: ele era um cara sofisticado para os padrões da bandidagem. Não há histórico de violência em suas ações. Falava outros idiomas, pilotava avião e todos os seus crimes eram bem planejados, em geral sem mortes. Para mim, como já disse, o crime foi compartimentado. O lado braçal ficou para a turma pé-de-chinelo da favela Pantanal, mas a concepção, o planejamento, foi do Dionísio. O helicóptero que o resgatou pousou em Embu ao meio-dia. No fim da tarde, eu e minha equipe já sabíamos da participação na fuga do Cleilson Gomes de Souza, vulgo Bola, que morava na rua Urca, número 23, na região. Foi o primeiro ponto da investigação.

Para tentar visualizar, o Dionísio, que fugiu de helicóptero da cadeia para matar Celso Daniel, era um homem rombudo, cabelos saindo do meio da testa, forte, fala mansa; baixava ainda mais o tom de voz quando se dirigia a mim, para indicar que tinha respeito. E não me olhava nos olhos: outro sinal, no mundo do crime, de que era moralmente genuflexo à autoridade.

O piloto afirmou ter sido rendido e obrigado a resgatar o Dionísio. Misteriosamente, após o bandido sair de seu helicóptero e fugir, ele demorou a avisar a polícia. Antes trancou a aeronave, voltou a São Paulo, e só então entrou em contato com policiais. Seu primeiro nome é Odaílton, mas era conhecido como comandante Dato. Quando ouvido, disse que a empresa da aeronave prestava serviços ao PT na capital, sobrevoava obras da prefeitura. Também afirmou que levava um funcionário da prefeitura de Santo André com malotes de dinheiro até

o heliponto da sede do Bradesco, ou nas imediações. A empresa em que ele trabalhava, a Táxi Aéreo Paradela, ou TAP, tinha sede em Santo André.

Na casa do Bola havia uma espécie de cativeiro nos fundos. Encontramos máscaras, luvas etc. Dentro de um caderno em espiral, achamos um envelope com o timbre do restaurante Rubaiyat. O que um envelope de um restaurante conhecido de São Paulo fazia, em uma casa na periferia de Embu? Na garagem havia um Santana azul placa CCC2703. Paramos tudo e avisamos a cúpula da polícia. Corre todo mundo para lá. O porta-malas é aberto e se encontram vários pelos brancos, fios de cabelo. O primeiro laudo afirma: não se pode excluir a possibilidade de os fios serem do falecido. Estranhamente, logo aparece a versão de que seriam pelos de cachorro. O Greenhalgh foi um dos que espalharam essa versão. Um dia ele vem me procurar; abro uma gaveta, tiro uma foto e falo: “O senhor está vendo isso aqui?” E ele: “O que é isso aí? Eu só to vendo uma foto, uma mão, o que é?” Respondi: “É a minha mão, e isso aqui que eu estou segurando é um cabelo. Eu tirei essa foto no local. Se sair só pelo de cachorro eu vou denunciar que eles fraudaram o laudo”. Foi uma confusão. No fim, o laudo não afirma se tratar de pelo de cachorro. Ao contrário: mantém a possibilidade de serem fios de cabelo do Celso Daniel. Bastava ter comparado com os fios de cabelo do morto. Mas não o fizeram. Falarei disso mais adiante.

Enquanto isso, tiramos o Santana da garagem, fizemos todas as perícias possíveis e a casa ficou preservada, isolada durante quase dois meses. Uma viatura ficava na porta. O Bola foi preso. Dentro do envelope com o timbre do Rubaiyat havia uma folha carbonada, onde aparecia o nome de uma empresa chamada La Lubina. Era um encaminhamento para dispensa médica de um sujeito chamado Carlos Eduardo Costa Marto. Segundo o Bola, era um garçom. Descobrimos que o Carlos Eduard

trabalhava no Rubaiyat da avenida Faria Lima e morava em uma pensão na rua Fernão Dias, em Pinheiros, normalmente ocupada por garçons e barmen de churrascarias famosas de São Paulo. No armário dele, na pensão, foram encontrados certificados de cursos de detetive. Aí que começa aquela história do dono da pensão, como eu já falei. O senhor Paulo, que tinha como livro de cabeceira Notícia de um sequestro, de Gabriel García Márquez, foi chamado a depor e interrogado duas, três vezes. Um dos sobrenomes dele é Chediak, e o Maurício (Correali, delegado) pergunta se ele seria parente do maestro Almir Chediak (assassinado tempos depois). “Não tenho nenhum parente conhecido” é a resposta.

Na casa da mãe do garçom encontramos, colado embaixo do telefone, o número de orelhão de um lugar conhecido como Jardim Maria Sampaio, no conjunto Siderópolis, em Taboão da Serra. A mãe disse que o filho dormia de vez em quando em um apartamento de amigos lá perto. E na carteira dele havia um comprovante de depósito em nome de Renê Reis Lima. Mas esse Renê acabou assassinado antes de ser ouvido: dois caras em uma moto atiraram nele. O garçom que ouviu a conversa do Celso Daniel com o Sérgio Sombra no Rubaiyat morreu da mesma forma; a testemunha deste crime também.

É preciso dizer que a minha situação era muito delicada, pois eu não estava investigando o caso do prefeito (já que ele foi tirado da região policial de Taboão da Serra e encaminhado ao Departamento de Homicídios – DHPP). Mas mora dentro de nós aquela vontade de investigar, que não esmorece mesmo quando somos exilados administrativamente, ou expulsos das esferas daquilo que o Cláudio Humberto chamou muito bem de “poder sem pudor”.

E prosseguiam as madrugadas investigativas. E continuavam a aparecer coincidências e evidências.

Nesse meio-tempo a gente estava ligando as peças. Já sabíamos que o garçom e a amante do Dionísio tinham feito o levantamento de preços do sobrevoo no Campo de Marte. E que o Bola e o Rodrigo, filho do Dionísio, na época menor de idade, tinham pegado o helicóptero, sob o pretexto de fazer um voo panorâmico, e resgataram o bandido. Quando chegam ao presídio, entram no helicóptero o Dionísio e o Aílton Alves Feitosa. Um terceiro preso chamado Dentinho desiste de fugir. Minha equipe foi ao presídio. Havia uns 30 presos apelidados Dentinho. Achamos o Dentinho que procurávamos e ele me disse: “Não vou falar porque tenho medo de morrer”. Perguntado se ele tinha parentes que trabalhavam na prefeitura de Santo André, disse: “Minha mãe”. E o tal Rodrigo, filho do Dionísio, se escondeu na casa de um parente chamado Lincoln, um ex-policial. Fomos fazer uma busca na casa do Lincoln no Campo Limpo. Abrimos o porta-malas e o porta-luvas do seu carro e achamos algumas coisas. No porta-malas havia três jornais dobrados em páginas específicas: um texto sobre o sequestro do prefeito, outro sobre o resgaste do helicóptero e um terceiro que narrava a morte de Celso Daniel. “O que é isso?”, perguntei. “É que estão vinculando as coisas”, respondeu o policial. “Quem está vinculando?”, insisti.

Falemos do porta-luvas. Lá estava o terminal de computador mostrando os antecedentes criminais de um sujeito chamado Alberto Klinger do Nascimento, que morreu na cadeia. Ligo para a Homicídios. Naquela altura, me confundi, achei que se tratava de um parente do secretário de Santo André. Mas a Homicídio me informa: Klinger é o primeiro nome, não o sobrenome. De qualquer forma, me passam os nomes dos pais do secretário. A mãe se chama Amarílis Chediak de Oliveira. Eu estava cansado, eram quatro ou cinco noites sem dormir. Esperto, atento, o Correali falou: “Peraí ! é o mesmo sobrenome

do dono da pensão”. Ordenei em resposta: “Vai buscar o cara”. Durante o interrogatório, pergunto: “O que você é do Klinger?” E ele: “Tio”. “Mas por que você não disse antes? O seu sobrinho envolvido nesse rolo”. “Ninguém me perguntou”, foi a resposta. Engrosso: “Tem um garçom do Rubaiyat na sua pensão, você é tio de um dos principais secretários de Santo André e fica calado?”. “Isso é briga de cachorro grande e sou cachorro pequeno”, ele emenda. Vejam só o tanto de coincidências.

Oficialmente, falam em seis pessoas ligadas à morte de Celso Daniel que morreram de forma suspeita ou por assassinato. Mas teve mais. Durante a investigação, a Justiça autorizou a quebra de sigilo telefônico do Lincoln, pois veio a informação de que ele andava conversando com alguém no Nordeste. Um dos telefonemas do Lincoln foi para um orelhão em Alagoas. Era uma pista importante. Em seguida, o Dionísio foi preso entre Sergipe e Alagoas, após roubar um banco. O assalto foi planejado em parceria com o Edmundo Massaferro Neto, o Véio. Ele ficou preso no Recife, não houve autorização para a transferência dele. O Véio morreu numa cadeia do Recife, não sei agora se por causas naturais ou não. O Dionísio foi mandado de volta. Isso em abril. Antes, porém, queria lembrar o caso do Feitosa.

Quando o helicóptero pousou no Embu, o Feitosa foi para um lado e o Dionísio para outro. O Feitosa se escondeu na casa do Bola. O Dionísio teria se escondido na residência de um indivíduo chamado Sérgio Orelha, outro assassinado posteriormente. Da casa do Bola, o Feitosa foi para outro lugar. Onde? No Jardim Maria Sampaio, conjunto Siderópolis, perto do orelhão cujo número estava anotado embaixo do telefone da mãe do garçom do Rubaiyat. O Feitosa foi preso, revelou o lugar e fizemos busca e apreensão. Lá encontramos um cartão que era o primeiro vínculo material de toda a investigação entre o Dionísio e os sequestradores da favela do Pantanal: o

telefone do Itamar Messias dos Santos, um dos líderes da quadrilha da Pantanal. O Dionísio falava com ele por esse celular. Para o Ministério Público, o Feitosa afirmou que uma pessoa importante da prefeitura havia se reunido com eles naquele endereço do conjunto Siderópolis. E volto à cueca ao avesso. O Celso Daniel pode ter sido levado para o apartamento no conjunto. Como o Sérgio Sombra virou suspeito imediatamente, os sequestradores devem ter se assustado e decidido tirar o prefeito às pressas de lá. O Dionísio, impedido de fazer contato com os mandantes, deve ter ordenado a morte. O Feitosa, o Dionísio e o Bola fugiram, então, para Ibiúna (interior de São Paulo). Quem os levou até lá foi um garoto chamado Rogério Alexandre Barbosa, vulgo Boy, filho de um vereador do PT de Embu. Quando a polícia descobriu o paradeiro deles, o Dionísio já tinha fugido para o Nordeste. O Bola e o Feitosa foram presos.

Quando estavam em um bar em Ibiúna, contou-me Dionísio, a televisão exibia uma reportagem sobre a morte do prefeito. O Dionísio pediu para todo mundo ficar quieto, pois ele queria ouvir. No fundo, acho, o Feitosa não sabia dos detalhes da história. Acho que da reunião com o tal representante da prefeitura, no apartamento de Siderópolis, ele não participou, ficou do lado de fora. Ele foi preso na praia do Francês, em Maceió. Levantamos seu esconderijo e avisamos a polícia de Alagoas, que o prendeu. Os delegados Correali e Múcio Mattos foram busca-lo e já começaram a obter informações.

Sua mulher também foi presa. Havia mandado contra ela. Na volta para São Paulo, quando ele desceu do avião, fui buscá-lo na pista do aeroporto, à meia-noite, em Guarulhos.

Algemado nas mãos e nos tornozelos, no pé da escada da aeronave, ele me propôs: “Doutor, solta minha mulher que eu confesso para o senhor o crime do prefeito Celso Daniel”. Eu

disse que não prendi a mulher dele por causa disso, e que a delegacia era o lugar de conversarmos. Disse ainda que iria pilotar a viatura para ele. Acomodei-o no chiqueirinho e partimos rumo à delegacia.

Fiz um caminho maluco, cheio de idas e vindas, por diversos bairros, e chegamos por trás, pela estrada de Itapecerica da Serra, evitando um possível resgate.

Qual não é minha surpresa quando, ao tirá-lo do fundo da viatura, ele soube descrever todo o trajeto que fizemos, mesmo os trechos improvisados! E para me gozar ainda falou: “Se eu tivesse um cavalo desses, ninguém me segurava”, se referindo à boa pilotagem que eu havia executado. Um espanto!

Era madrugada, o depoimento de Dionísio durou quase vinte horas, mas ele só começou a falar no final, depois da chegada das duas advogadas.

Saímos direto da pista do aeroporto de Cumbica e fomos para a delegacia de Taboão da Serra, para iniciar o interrogatório. Mas o preso começou a enrolar, pedia para a gente conversar antes de ele dar um depoimento formal. Eu tentava puxar a conversa a partir da organização da cadeia. Ele dava detalhes do Comando Revolucionário Brasileiro da Criminalidade, o CRBC, sob sua liderança. O CRBC fazia oposição ao PCC, como já disse. Segundo o Dionísio, existiam umas 15 facções no mundo prisional, mas as principais eram o PCC e o CRBC. Falamos um pouco mais a respeito, e aí perguntei sobre o caso Celso Daniel. Dionísio recuou, disse não saber de nada. Insisti: “Você conhece ou namorou alguma mulher ligada ao pessoal de Santo André?” Após esquivar-se e dizer que não lembrava direito do sobrenome, ele confirmou: “Namorei uma moça chamada Adriana Pugliese”. Ele me olhou desconfiado, esboçou um sorriso malandro. Retruquei: “Quem é?”. Ele: “A ex-mulher do Sérgio Sombra”. Prossegui: “De onde você a conhece?” Ele

devolveu: “Antes desses problemas, de virar sequestrador, fui segurança da prefeitura de Santo André”.

Ele dava risadas, como se dissesse: Vou contar, mas do meu jeito, no meu tempo…” Depois, começou a dizer que só falaria em juízo. Perguntei o que ele achava da morte do prefeito. “Ele deve ter mandado parar o esquema, né… Daí mataram ele”. Toda essa conversa se passou em 8 de abril, três meses após a morte do prefeito.

Eu tinha de achar o momento certo para colocar aquilo no papel e ter respaldo. Caso contrário, todo mundo cairia matando nas minhas costas. Pensei: vamos ouvi-lo com calma. Não dava para ficar com ele na delegacia, era preciso mandar para algum presídio. E comecei a negociar uma forma de não enviá-lo a um presídio dominado pelo PCC. Negociei com o secretário de Assuntos Penitenciários, o Nagashi Furukawa, que foi muito correto. É um homem sério. Pensaram, inicialmente, em uma cadeia a 400 quilômetros de São Paulo, mas ele teria de voltar em dez dias para depor. Vai e volta, sugeriram o CDP1 do Belém, zona leste de São Paulo. Consultei o Dionísio. Ele deu o ok, disse que era área dele, na presença de sua advogada. Mandaram removê-lo à noite. Ao passar o portão, ele disse à escolta: “Fiquem tranquilos, estou em casa”. No dia seguinte ele estava no parlatório, em conversa com uma das advogadas, a Maura Marques. No mesmo local estava o José Edson, integrante da favela do Pantanal, não se sabe por quê. E aconteceu uma coisa surreal, escandalosa, absolutamente incomum. Nove portas do presídio estavam abertas. Um grupo de presos atravessou as nove portas, pegou o Dionísio no parlatório onde ele, tranquilamente, escrevia uma carta para a sua mulher, a fim de que sua advogada pudesse entregar, e o arrastaram. E o José Edson ali, vendo tudo. A advogada ligou lá de dentro e disse: “Doutor, estão matando o menino. O Dionísio levou mais de 40 facadas!”

Para apurar as circunstâncias da morte dele não fizeram quase nada. O Maurício foi até o presídio e fez uma coisa que os outros não fizeram. O pessoal da Homicídios não foi à cela do Dionísio. O Correali havia entrado lá no CDP e encontrou um bilhete de boas-vindas de outros presos e uma bermuda com vários números de telefone, anotados com caneta vermelha, que foram apreendidos no 81o DP. Isto na cela do Dionísio, que não foi vistoriada pelo DHPP. Penso que o Ministério Público quebrou o sigilo dos telefones. Agora, me respondam: como, em um presídio de segurança máxima, deixam nove portas abertas entre uma área e outra?

A morte do Dionísio complicou a investigação. Os promotores, com a quebra do sigilo do telefone que o Dionísio usava na cadeia, descobriram uma intensa troca de ligações com um policial da Delegacia de Narcóticos chamado Otávio Mercier. Ele foi ouvido pela Corregedoria e disse que não sabia de nada. Numa noite, entraram na casa dele e o mataram, lá na Alameda Santos, próximo ao restaurante Rubaiyat onde Celso Daniel fez sua última refeição em público.

A minha tese do assassinato é clara: a quadrilha que executou era diferente daquela que planejou. A ligação entre as duas era o Dionísio. Acho que o objetivo era dar um susto no Celso Daniel, mas a coisa saiu do controle. Não sei se a briga era para parar o “desvio do desvio”, o “roubo do roubo” do dinheiro, ou se queriam mais recursos para a campanha. Mas tenho uma forte convicção de que o homicídio do prefeito foi acidente de percurso. Não tinha sido planejado, premeditadamente, por quem planejou o sequestro. Não podemos, entretanto, deixar de registrar que quem planejou assumiu o risco do resultado. Temos duas razões bem claras para cravar isso: primeiro que, para matar o prefeito, bastava ter atirado nele na hora da abordagem inicial; e se o Sombra não estivesse envolvido ele também seria

morto ali. Segundo: como a motivação do crime, no meu entendimento, era uma disputa político-administrativa que visava dinheiro, ninguém seria insano de matar a “galinha dos ovos de ouro” e o dono da granja! Já em Brasília, anos depois, Gilberto Carvalho me disse que procurou a família do Celso para tranquiliza-los diante das notícias e, como primeiro homem de confiança, para explicar que nem o Celso nem ele haviam desviado um centavo para o bolso. Que aquele dinheiro ele levava para o José Dirceu, para ajudar o partido na campanha; que fez aquela visita na melhor das intenções e se sentiu muito injustiçado quando o irmão do Celso tornou pública aquela história. Gilberto Carvalho também me disse que levava o dinheiro em um fusquinha para o José Dirceu.

Bem, certa vez o médico legista deu uma entrevista na qual garantiu que o Celso Daniel havia sido torturado. Como disse, fui um dos primeiros a ver o prefeito morto. Ele tinha uma expressão de sofrimento, além de marcas de queimadura nas costas, possivelmente provocadas pelo contato da pele com a boca do cano fervente do revólver.

É uma incógnita o porquê de terem submetido Celso Daniel a tantos e tamanhos sofrimentos. Ele pode ter identificado alguém e se horrorizou com o que estavam fazendo com ele. Você conhece aquela máxima, não? Não existe crime perfeito, e sim crime mal investigado. Não faz muito tempo foi preso o Elcyd Brito, o “John”, um dos acusados, que tinha fugido. É alguém que poderia esclarecer muito a respeito desse crime.

O Sombra acabou sozinho nessa história. Pagou o pato. Ele poderia se valer da delação premiada, seria o único caminho. Por trás de tudo estão empresas de lixo, de ônibus. A empregada do Celso Daniel disse, em depoimento, que juntava na casa dele sacolas de dinheiro miúdo. Segundo ela, o dinheiro ficava escondido na lavanderia. E quem era dono de empresa de trans

porte? O Ronan Maria Pinto, que, aliás, usava o CPF do Sérgio Sombra para abrir empresas no Nordeste e participar de licitações. Isto foi até noticiado num jornal.

O Celso Daniel iria ser figura central na campanha do Lula, cotado para chefe da Casa Civil de um eventual governo petista, sem dúvida. Ele seria o homem forte da campanha e do governo. Havia inclusive uma dúvida se ele sairia candidato a senador, além de coordenador financeiro da campanha, ou se só se dedicaria a essa última tarefa. Se não fosse a morte dele, o Palocci e o Gilberto Carvalho não teriam chegado aonde chegaram. Tem outro detalhe: nos casos de extorsão mediante sequestro, as quadrilhas costumam ser pequenas. Quanto menos gente, melhor a segurança. Não foi assim no caso Celso Daniel. Só em Embu a polícia prendeu mais de 15 indivíduos, e outros 10 ou 15 na favela Pantanal, fora os demais suspeitos. Quase 50 pessoas para participar de um crime de oportunidade? Tem algo errado aí.

Na minha investigação não apareceu o nome de nenhum figurão do partido, pois eu não investigava o caso diretamente, mas a fuga do Dionísio da cadeia. E é um caso com componentes de ficção, a começar pelas mortes de envolvidos e testemunhas. Por exemplo: o Iran Redua, agente funerário que encontrou o corpo do Celso Daniel: também foi assassinado. Aparentemente, a morte dele ficou esclarecida: morreu por causa de uma briga entre funerárias da região. Mas é o único caso. Os demais foram mortes suspeitas. A pergunta é: trata-se de um crime de mando? O problema é que o Dionísio levou para a sepultura uma grande parte da história. Há vários elementos de ligação entre ele e o sequestro: os telefones da favela Pantanal, seu relacionamento com o Itamar, a casa no Embu onde ele se escondeu… Antes da fuga, o Dionísio recebeu uma grande quantidade de visitas, mais de 60. E, em 31 de dezembro (ele fugiu em 18 de janeiro), a Secretaria de Administração Penitenciária foi infor

mada da intenção dele de fugir de forma espetacular. Não se sabia como, e isso era mais um motivo para redobrar a segurança. Mas, no dia da fuga, a guarda relaxa, e ele acaba resgatado por um helicóptero no meio do presídio.

Reforço: oficialmente, fui eu quem reconheceu aquele corpo torturado. Tratei de comunicar ao delegado-geral  de Polícia de São Paulo, Dr. Marco Antônio Desgualdo, por meio do delegado de Permanência do CEPOL, que é o Centro de Comunicações e Operações da Polícia Civil, incumbido de gerenciar ocorrências de gravidade. O desfecho, já sabemos – uma imagem que circulou o mundo: numa estrada de terra, um corpo masculino, trajando calça jeans, rodeado de autoridades estupefatas, que se questionavam por que aquele corpo fora deixado ali, no Município de Juquitiba. Juquitiba, como sabemos, pertence, também, à Seccional de Polícia de Taboão da Serra. E lá estava eu, novamente, às voltas com crimes envolvendo atores da cena política. (Não estou a dizer que o crime foi político – isso compete a quem investiga/ou o caso; afirmo que a vítima era, notoriamente, do meio político). Aliás, sobre isso cabe uma pequena observação. É importante saber se o crime foi de mando ou não! Se a motivação é ou não é política, isso pouco muda o resultado! Crime político, mesmo, é cometido geralmente contra o Estado ou contra instituições. Na maioria das vezes, nos crimes de sequestro, o que caracteriza se o crime é político ou não é o tipo de resgate. Por exemplo: um sequestro de certa autoridade cujo resgate exigido é a distribuição de alimentos em uma comunidade; ou a troca por presos. Isso seria crime político para desmoralizar o Estado. Agora, é muito relativo você dizer que alguém que exerce uma função política foi sequestrado por conta de acertos pessoais, ou mesmo decorrentes de sua atuação na função mas com base em questões de dinheiro. Aí não é a atuação política, é o enriquecimento, o desvio, a grana,

o patrimônio que motiva o crime. É preciso saber diferenciar bem. Uma coisa é motivação política, outra coisa é motivação pela convivência política. O fim, o desfecho pretendido é que qualifica ou classifica o crime como político ou não. O certo no caso do Celso, na minha opinião, é que se tratava de um sequestro, com resgate fictício, por questões financeiras derivadas da atuação político-administrativa dele e dos idealizadores mandantes, mas que deu errado na execução e tiveram que mata-lo. Quando digo questões financeiras é de dinheiro mesmo que estou falando, cuja arrecadação espúria não queriam diminuir.

Voltando. Quando a coisa começou a crescer (os caminhos das investigações), foi convocada uma reunião. Participamos eu, o delegado-geral , representantes da Polícia Federal e do Instituto de Criminalística, do DHPP, umas 30 pessoas. Cada um iria mostrar o que havia conseguido. Eu tinha as melhores pistas, os indícios mais fortes. Mas ficou naquilo: eu vivia um ostracismo na polícia, por conta da investigação da máfia dos fiscais que atingiu inúmeros políticos. Meu envio para a delegacia de Taboão foi uma punição. Mesmo assim, por curiosidade policial e também para juntar mais elementos para a minha investigação, fui checar histórias por conta própria. Fui ao local onde o Celso Daniel foi sequestrado. Os caras da favela Pantanal alegaram que estavam esperando passar o dono de uma banca no Ceasa, um senhor nipônico. Este seria o alvo deles. Teriam levantado a ficha dele e descoberto que, naquele dia, ele passava com dinheiro do caixa etc. Mas, como o cara não passou naquele dia, viram a Pajero onde estava o Celso Daniel e decidiram sequestrá-lo, sem saber que ele era o prefeito de Santo André. Não tem lógica. Se você planeja o sequestro do feirante, pois sabe que toda semana, naquele dia específico, ele passa sempre como muito dinheiro, o que você faz? Se ele não passou naquele dia, espera a outra semana. Você não pega alguém ale

atoriamente se seu alvo principal não aparece. Outra coisa: a Pajero do Sombra vinha da avenida Bandeirantes e iria pegar o túnel Maria Maluf. Os sequestradores estavam do outro lado, em uma rua perpendicular à pista principal. Não havia como darem a volta e interceptarem o carro onde estava o prefeito na altura da Três Tombos, como fizeram. É tudo mal contado. Só que todo mundo tinha interesse em que o caso não fosse investigado direito. O PT por não querer escândalo, e o PSDB para não ser acusado de armação contra os adversários. Foram os tucanos que barraram a minha investigação. Aí também começa o circo. O (senador Eduardo) Suplicy conversa com o Geleião (líder do PCC) e vai falar com o (governador Geraldo) Alckmin. Diz que o Geleião tem pistas do assassinato. O Alckmin fica em uma saia justa, pois o senador coloca o Geleião na linha para falar com o governador, e ele, que estava preso no Rio de Janeiro, pede para ser transferido para São Paulo em troca de revelar o plano do sequestro. Depois de anos, constatouse que não tinha PCC na história coisa nenhuma. O meu pai, o Suplicy e o Magno Malta, da CPI dos Bingos, vão depois, em companhia do Ministério Público, ouvir o Geleião – e ele não sabia de nada. Mais uma obra do Suplicy.

Hoje, quando se noticia sobre o assunto, na verdade o Ministério Público comete um pecado e uma injustiça ao afirmar que a Polícia Civil falhou, não apurou direito. É uma generalização injusta e indevida, porque um departamento da polícia chegou a conclusão diferente. Toda a base da denúncia que o MP fez e faz está nas investigações que minha equipe da Polícia Civil de Taboão da Serra realizou. Estão calcadas em provas colhidas por aquela pequena e briosa equipe. Não é verdade que o MP fez a apuração sozinho; eles não podem institucionalizar individualmente nem o sucesso nem o fracasso das investigações. Aliás, por conta dessa vaidade institucional imatura, abriram uma

enorme brecha para a defesa recorrer ao Supremo para anular as investigações, que, como disse, começaram legitimamente, em um inquérito policial em Taboão da Serra. Tanto é verdade que me arrolaram como testemunha, e é isso que vim a descobrir e que o Gilberto Carvalho não perdoa. Ele só tinha dúvidas; quando me chamou naquela tarde de maio de 2010, para conversarmos em Brasília, teve a certeza.

Quando investiguei a verdade, o fiz, como de costume, com uma venda nos olhos, doa em quem doer, por ser do meu perfil, da minha índole, do meu caráter, do meu compromisso moral e profissional, aliás, sempre achei que estava ajudando o presidente Lula, naquela época ainda pré-candidato, ao descobrir criminosos dentro ou à margem de sua campanha, dentro ou fora do seu partido, perto ou não do seu círculo de amizades. Seria um grande préstimo para ele poder se cercar de gente proba e honesta, separar o joio do trigo. O tempo mostrou que eu estava equivocado.

É bom relembrar que dentre outras menores, em 2002, o PT tinha o comando, além de São Paulo, sobre três importantes prefeituras: Campinas, Santo André e Ribeirão Preto. Na época, o Ministério Público de São Paulo já investigava a instalação de antenas da Tim, em locais proibidos, nas cidades de São Paulo, Santo André e Ribeirão. Foi o período em que a Tim se aproximou do PT e começou a mandar para cá os espiões do Tiger Team. Só em 2013, chegou ao Brasil o inquérito da Procuradoria de Milão, a investigar quanto do dinheiro público italiano foi torrado para, supostamente, azeitar, de forma ilegal e com o uso desses espiões, as autoridades brasileiras. A estimativa da sangria é de 120 milhões de euros. Para quem terão ido, aqui no Brasil, tais somas?

De um jeito ou de outro, havia a prática comum do que se conveniou chamar de arrecadação de “caixa 2” via desvio de re

cursos públicos licitados. Dois desses prefeitos, o Celso Daniel e o Toninho, foram assassinados. Os petistas justificam a prática dizendo que o dinheiro não é para enriquecimento pessoal, é para o partido.

Um absurdo! Qual a diferença? É roubo do mesmo jeito; fazer crer nisso é puro estelionato eleitoral. Na administração do Palocci em Ribeirão Preto, houve o escândalo do lixo. São caminhos comuns para desviar dinheiro: contratos com empresas de coleta de lixo, de transporte público. Certas pessoas contam isso como se fosse um ato de “heroísmo”: desviar dinheiro público para financiar partidos e atividades políticas. É um assalto! É mais grave que um crime comum, pois faz vítima a sociedade como um todo. Não tem vítima individual, a vitimização é em massa, é coletiva. Às vezes as pessoas precisam se indignar mais com a causa do que com o efeito. A desculpa é mais vergonhosa que o desvio, se é que podemos dizer assim. Mudaram os paradigmas?

No caso específico do lixo, o que acontecia era o seguinte: o pagamento de um contrato é feito com base em uma quantidade de lixo recolhida. E é muito difícil fiscalizar, saber quantas ruas foram de fato varridas, quanto lixo foi de fato recolhido, pois muito do que é atestado para pagamento não é realizado. Você entrega o contrato em troca de dinheiro, de empregos, da nomeação de aliados e apadrinhados políticos na empresa. Os caras acomodam suas indicações – além do clássico e conhecido superfaturamento nos contratos para pagamento de propinas, desvios de toda espécie, presentes, viagens etc.

O Toninho do PT (Antonio da Costa Santos, ex-prefeito de Campinas, assassinado a tiros às 22h15 do dia 10 de setembro de 2001) não era de praticar crimes contra o erário, ao que me consta. Até porque eu ia ser o delegado seccional lá em Campinas para investigar esse crime, a convite do doutor Eduardo Halage, à época diretor do Deinter 2, o departamento de Polícia

da Região, fato que não se consumou por ordem do então secretário Petreluzzi, que vetou minha ida.

Por isso que o Toninho, pelo que eu sei, não era um cara que desviava recursos. Não desviava para ele e nem deixou o partido montar esquema para desviar verbas, institucionalizando a corrupção – até porque ele era novo na prefeitura. Não se pode afirmar que tenha morrido por isso. Muito se especulou a esse respeito nos bastidores das investigações e da política. O fato é que, após sua morte, vários problemas começaram a ocorrer na condução administrativa da cidade de Campinas.

O Celso era um cara que tinha um esquema montado, institucionalizado pelo partido, então os desvios de recursos da prefeitura de Santo André eram canalizados para o partido. O próprio Gilberto Carvalho me confessou isso no dia do meu sincericídio.

Eis o que eu acho que aconteceu: o Celso, alguns assessores e secretários haviam tido algumas brigas, porque, quando ele foi convidado pelo Lula para ser o coordenador de campanha e chefe do financeiro ele sairia candidato a senador. Ficou uma dúvida se ele sairia ou não, pois achavam que se ele se dedicasse a uma campanha de senador poderia atrapalhar na arrecadação e na articulação, na coordenação da campanha.

Nisso, há algumas pessoas ligadas a esse grupo mais fechado dele, como o Ronan Maria Pinto e o Klinger, por exemplo, que queria ser candidato a deputado na época. Ele já avisara que seria o candidato a prefeito na próxima eleição. E houve então um grande desentendimento com o Celso, que fez uma reunião com o pessoal mais próximo.

Celso falou que “proibia” qualquer um deles de se candidatar a qualquer cargo naquela eleição – para prefeito muito menos, porque ele iria lançar um sucessor – e que não era um momento oportuno de se falar no assunto. Mas naquela eleição ninguém

era candidato, porque ele, Celso Daniel, não queria que mexessem em nada que estava funcionando. Caso alterassem algo, referia Celso Daniel, poderiam atrapalhar o esquema que já funcionava na prefeitura, e assim afetar a campanha presidencial do partido.

Aí rolavam muitas brigas relatadas por várias pessoas. Para nós isso chegou como notícia, como informação, como depoimento. O que a gente tem de concreto nisso é que eles tinham um esquema de arrecadação pró-partido, e nesse esquema estava havendo desvio para o bolso das pessoas, desses empresários e deles também. Como o achaque começou a crescer, isso se avolumou muito. Eles devem ter aumentado o valor por causa da campanha, pois sempre ficavam sem fôlego no segundo turno.

Nós não conseguimos saber os valores exatos, eu não consegui prosseguir com a investigação; creio que o Ministério Público tenha isso no papel. Era uma arrecadação em torno de 20 mil reais e teria passado para 40 mil, mais ou menos. A cobrança maior era em cima dos empresários de ônibus e do esquema do lixo. Essa “contribuição” era a propina mensal que os empresários do transporte coletivo e da de coleta de lixo tinham que dar à prefeitura.

O que acontece nesse momento? Concebe-se um plano de sequestro para pôr limites ao esquema ganancioso e desenfreado, que parecia estar afastando os antigos “aliados” da roubalheira em prol de um projeto de poucas pessoas, somado a um outro político-partidário.

Esclarecer a morte do Celso Daniel era importante mas me largaram sozinho, ataram as minhas mãos. Lembro-me  de noites na delegacia de Taboão, cercado pelos pacotes de objetos que tínhamos apreendido: a calça, marcas de sangue, terra. Eu e mais três delegados virando noites. E eu ainda sendo ameaçado

de morte pelo Dionísio, que mandou espalhar a intenção de me matar antes de ser preso. Mas, respondendo: o Greenhalgh sempre foi o elemento de ligação do PT com as investigações; ao que consta, ele havia sido designado pelo partido para isto. Aliás, no caso do Celso, a atuação dele foi decisiva para o PT, para o presidente Lula e, principalmente, para o Gilberto Carvalho e outros. Ele conseguiu blindar todos, estancar, naquele momento, a tese de crime que envolvia corrupção na prefeitura, acelerar as investigações para saírem logo da campanha eleitoral, enfim, uma atuação quase que impagável (nos dois sentidos do termo).

O cadáver no 320

Sobre a morte de Celso Daniel, tive muitas dúvidas. Por exemplo: o prefeito foi morto ou não em Juquitiba? Por que ele estava com roupas diferentes das que trajava quando do sequestro? Por que sua cueca estava do avesso? Por que o cadáver foi abandonado em Juquitiba, próximo à Rodovia Régis Bittencourt?

Falemos um pouco das provas materiais telefônicas, ou melhor: permito-me não dizer nada, apenas reproduzir conclusões do relatório da “CPI dos Bingos”, que assim dispôs:

“Dionísio de Aquino Severo utilizava o celular 98567718 e, após a fuga da penitenciária de Guarulhos (17 de janeiro), migrou para o telefone 99101892 (cuja quebra ainda não foi providenciada). Essa evidência pode ser observada porque, quando Dionísio encontrava-se encarcerado, fez, entre outras, ligações para os números 92547039 (utilizado por Manoel Sérgio Estevam – conforme declarações de fls. 450/453 do PAC 01/03 GAERCO Santo André), 95076275 (pertencente a Fabiana Glória Gangeni), 95022172 (sem cadastro) e 46858678 (sua tia Gildete).

Efetuadas pesquisas sobre possíveis ligações na CCC SPO 43 ERB 15, situada na rodovia Régis Bitencourt, altura do Km 276, Embu, no período compreendido entre 23 horas do dia 18 e 14 horas do dia 20 de janeiro de 2002, envolvendo os números acima citados, o resultado foi o de que os três primeiros telefones comunicaram-se com o celular 99101892. Nova pesquisa, agora sobre este último número, revelou que houve o estabelecimento de comunicações com os telefones 46858678 (fls. 70 do vol. 3 – residência de Gildete de Souza Aquino – tia de Dionísio), 92638560 (fls. 65 do vol. 4 – utilizado por Gisele de Lena, parceira de Dionísio – Processo 434/02, da 3a Vara de Embu, relacionado à fuga de helicóptero). Desta forma, não resta dúvida quanto à utilização do celular mencionado por Dionísio.

Por intermédio desse telefone, apenas na área de abrangência da referida ERB, no dia 19 de janeiro de 2002, entre 1h05 e 18h20, Dionísio efetuou um total de nove ligações, incluídas aquelas já mencionadas, entrando em contato, também, com os usuários dos celulares 95088463 e 95042421, que não foram ainda objeto de pedido de quebra judicial.

Por intermédio do no 98567718, ainda no interior da penitenciária de Guarulhos, Dionísio estabeleceu contato, dentre outros, com o celular 98874740, pertencente a Josiane Graziela da Silva. Em nome desta mesma pessoa encontrava-se registrado o celular 95087384, que, na noite do arrebatamento do prefeito Celso Daniel, por intermédio da CCC SPO 31 ERB 001, situada na rua Vergueiro, 9.584 (ERB próxima ao local do arrebatamento), entre 23h45 e 23h47, estabeleceu contatos com os telefones da Nextel de prefixos 78340000, 78501000 e 78570000, os quais também são verificados

nos históricos de chamadas dos telefones de Sérgio Gomes da Silva, Klinger Luiz de Oliveira Souza, Fernando Donizete Ulbrich, Sebastião Ramos Pereira, Ronan Maria Pinto, Ozias Vaz […].

Por fim, mediante autorização de Luiza Alves de Souza, pessoa que acolheu Dionísio de Aquino Severo (amigo de seu marido Manoel Sérgio Estevam, com quem Dionísio esteve em reunião) em seu apartamento por determinado período, a empresa Vesper já forneceu extrato das ligações efetuadas através de seu telefone residencial 34525143, onde se nota, entre outras ligações, algumas efetivadas para o telefone residencial 43578261, cujo cadastro, em nome de Rosane Alves da Silva, aponta estar instalado na rua Nápoles, nº 120, São Bernardo do Campo, endereço vizinho ao de Ivan Rodrigues da Silva (rua Nápoles, nº 36, São Bernardo do Campo), evidenciando mais um contato entre as pessoas relacionadas a Dionísio e aquelas relacionadas à quadrilha de Ivan “Monstro”, da favela Pantanal”.

O leitor é inteligente e, a bem da verdade, nem precisa ser tanto. É preciso falar algo mais sobre isso? Creio que não, mas irei um pouquinho mais adiante, registrando que o ministro da Justiça, à época dos fatos, era o Aloysio Nunes, que se diz amigo de ilustres figuras do PT. E aqui não se faz nenhuma elucubração por isso, muito menos qualquer acusação. Registro apenas porque, no início das investigações, quem disse que o crime era de natureza política foi o próprio PT e que até encadeou as mortes do Celso e do Toninho com o caso de uma bomba na casa do então prefeito do Embu, hoje deputado estadual, como “prova” para tal assertiva. Aliás, sobre a bomba na casa do Geraldo, foi minha equipe que investigou e esclareceu: estava ligada a problemas de corrupção no município. Registrei também quem era

o ministro, para externar minha perplexidade ao lembrar que dois delegados da PF estiveram no apartamento do Celso Daniel após o crime. Fizeram uma busca, e consta que levaram seu computador, fato registrado pela TV Globo, que os abordou na saída do prédio; até hoje ninguém sabe e ninguém viu aquele hardware. Ambos os delegados, por mera coincidência, foram muito prestigiados no governo Lula, que se instalou menos de um ano depois.

Mas voltemos a falar daquela passagem em que citei o Greenhalgh, falemos de pelos, humanos, no caso.

Na rua Urca, no 23, na cidade de Embu, funcionava a central criminosa de Dionísio e parte de seu bando. No porta-malas daquele Santana eu encontrei, fotografei e entreguei aos peritos criminais alguns fios de cabelos brancos. Foi uma cautela de minha parte. Eu investigava o caso do helicóptero; por ordem, não poderia apurar a morte do prefeito, é bom frisar. Entretanto, eu tenho convicção plena de que estávamos diante de crimes conexos; por isso, tive a cautela de, ao constatar a presença de cabelos no porta-malas de um carro, preservá-los.

Ao leitor não parece algo sintomático a presença de cabelos no porta-malas de um automóvel? Ao mais bobinho dos homens não é levada a sensação de haver indícios fortes de que alguém tenha sido trancafiado ali? Pois é. Mas, no mundo do Direito, as coisas têm que ser provadas, não basta ficar nas suposições e formulações de hipóteses. É por essa razão que requisitei exames periciais nos pelos, não só nos que recolhi mas em outros aspirados no veículo e/ou arrecadados por peritos.

Cadáver no 320 – essa foi a denominação que recebeu o corpo do senhor Celso Daniel, no IML. Assim consta no Laudo no 01/2002, elaborado pelo Núcleo de Antropologia do Instituto Médico Legal de São Paulo por minha requisição. No laudo

está escrito que o doutor Carlos Delmonte, o médicolegista que examinou o cadáver, entregou um envelope com cabelos, recolhidos durante a necropsia do corpo numerado. Esse médico, Lembrme  muito bem, certa vez foi ao Programa do Jô e, visivelmente abatido, disse que Celso Daniel foi torturado antes de morrer, o que contrariava o discurso petista de “crime comum” ou “crime de ocasião”. Dias depois, o médico morreu, misteriosamente, em seu escritório particular.

Hoje verificamos, com clareza, que há dois tipos de mortes: a física e a moral. Por exemplo: o Celso Daniel, o Toninho do PT, o Dr. Delmonte, o Renê Reis Lima (comparsa do Dionísio), o garçom do Rubaiyat, o amigo deste garçom, o agente funerário que encontrou o corpo do prefeito, Massaferro (comparsa de Dionísio), o investigador Otávio Mercier, o Sérgio Estevam (parceiro de Dionísio) e outros tiveram morte física. Quanto a mim, tentaram matarme moralmente. De quebra, levaram fisicamente o velho Tumão.

A essa altura, o leitor entende bem o que quero dizer quando falo em metástase. Mas continuemos na questão dos pelos para exemplificar quanta pressão subterrânea cercava o caso e aqueles que nele atuavam.

Os peritos Daniel Romero Muñoz e Lígia M. Fernandes Silva, após realizarem confrontos entre diversos pelos recolhidos do Santana e os do “cadáver nº 320”, foram categóricos:

“3.8 As características qualitativas e quantitativas avaliadas nesse exame piloscópico não permitem afastar a possibilidade de os pelos nº 5, 13, 14, 16, 18 e 21 serem da vítima Celso Daniel”.

Destaque-se que todos esses pelos estavam no interior do veículo Santana, de placa CCC2703 – Embu/SP.

Este laudo foi feito em 4 de fevereiro de 2002. E um fato muito estranho aconteceu naquele contexto. No dia 28 de janeiro, eu havia recebido um telefonema da repórter Rita Magalhães, do jornal Agora São Paulo. Ela perguntou se eu sabia do resultado do exame pericial dos pelos e eu disse que não. Ela falou que preparava uma manchete bombástica para o dia seguinte, em que seria explorado que os pelos que estavam num veículo Santana não eram humanos. Eu fui enfático: “Isso não é possível. Se acontecer isso, eu vou desmoralizar a perícia”. Em seguida, liguei para o Dr. Greenhalgh e solicitei a presença dele, com urgência, em Taboão da Serra. Ele era designado pelo PT para acompanhar as investigações da morte do prefeito. Prontamente atendeu ao chamado e, em menos de uma hora, estava na minha sala.

Contei a ele o que tinha ocorrido, abri a primeira gaveta direita da minha mesa e mostrei a ele uma foto onde apareciam dois dedos, segurando fios de cabelos brancos. Ele olhou, meio assustado, e questionou-me a respeito do que era aquilo. Eu disse: “Dr. Greenhalgh, são meus dedos segurando cabelos encontrados dentro do porta-malas do Santana do Embu. Fui em quem tirou as fotos. Sou sincero: se sair no laudo que só havia pelos de animais ali, divulgarei esta foto para a imprensa e desmoralizarei a perícia, que terá sido uma fraude, uma armação”.

Ele disse: “Dr. Tuma, fique tranquilo, eu vou já ver isso no Instituto de Criminalística”.

Dito e feito. No dia 29 de janeiro, o Agora São Paulo lançou:

Fios brancos encontrados no carro do cativeiro são de animal

Rita Magalhães, do Agora São Paulo.

Peritos do Instituto Médico Legal constataram que os fios brancos achados no porta-malas do carro, localizado num su

posto cativeiro em Embu, não são do prefeito Celso Daniel. O Agora apurou que os fios não são humanos, mas sim de algum animal doméstico – cachorro ou gato – que foi transportado no veículo. O laudo negativo começa a derrubar a linha de investigação que pretende estabelecer um elo entre o sequestro e morte do prefeito de Santo André e o resgate de dois presos da Penitenciária José Parada Neto, de Guarulhos (Grande SP).

O suposto cativeiro foi localizado em Embu (Grande SP).”

Pelo texto, a matéria continha claramente um objetivo: desacreditar a investigação que eu fazia e que envolvia o Dionísio na morte do prefeito. Ademais, estranhamente, não foi reproduzido o “on” que eu dei para a jornalista, desse modo: “Desafio alguém a me apresentar um laudo nestes termos e assinado”.

Voltemos aos detalhes, àqueles que não podem escapar aos olhos investigativos. O leitor lembra que Greenhalgh afirmou que iria ao Instituto de Criminalística no dia 28 de janeiro? Uma coisa despertou-me a atenção durante a leitura do Laudo no 01/02, firmado no dia 4 de fevereiro daquele ano. Consta no item I – HISTÓRICO: “Recebemos, através do Dr. Carlos Delmont, no dia 28/01/02, um envelope de papel pequeno, pardo, do IML, com a inscrição Cadáver no 320, que segundo sua informação, foram cabelos por ele recolhidos da vítima Celso Daniel, quando do exame necroscópico. (…) No dia 29/01/02, através do ofício BIOQ 013/02, foi encaminhada amostra colhida por aspiração do porta-malas do veículo Santana (suspeito), com lacre 0010925 (azul), para exame comparativo dos mesmos”.

Pergunto: o que levou o médico-legista a entregar os cabelos para confronto justamente no dia 28? Que teria dito o senhor Greenhalgh aos peritos? E mais: por qual razão não havia lacre no envelope entregue? Mais ainda: por que somente no dia 29, depois da notícia no jornal, é que foram encaminhadas as

amostras lacradas, apreendidas no Santana do Embu para exame comparativo?

Outra pergunta: por que a repórter falava em laudo quando me telefonou no dia 28, a mesma coisa na reportagem do dia 29, se o laudo só foi feito em 4 de fevereiro?

Lançando-se um olhar técnico sobre esse quadro, nota-se que: a) o laudo já estava pronto no dia 28; b) o laudo vazou para a repórter no dia 28; c) em razão do que eu disse a Greenhalgh, no sentido de desmoralizar a perícia, certamente houve o refazimento da peça, levada à publicação no dia 4 de fevereiro. O que confirma minha tese? A conclusão dos peritos:

As características qualitativas e quantitativas avaliadas neste exame piloscópico não permitem afastar a possibilidade dos pelos 5, 13, 14, 16, 18 e 21 serem da vítima Celso Daniel; nada mais havendo a acrescentar, encerramos, 4 de fevereiro de 2012”.

Então, a senhora repórter antecipou as conclusões errôneas da perícia que, por óbvia gestão de Greenhalgh, foram reparadas, produzindo-se um laudo que nada tem de “negativo”. Resumindo: são fortíssimos os indícios de que Celso Daniel esteve naquele porta-malas. E se eu não tivesse tirado aquela foto ao lado do perito, para minha segurança e arquivo pessoal, por pressão e interesse de alguém, teríamos um “laudo fajuto”. Especulo: será que esse tipo de pressão, que não é pouca coisa, pode ter causado a morte do Dr. Delmonte?

Enfim, eu fui pesquisar quem era a repórter com colegas dela, e descobri que namorava ou era casada com um outro jornalista, assessor de imprensa da Secretaria da Segurança Pública. A manchete dos pelos caninos, acho que era uma matéria encomendada para enfraquecer e esvaziar o trabalho de investigação que eu estava fazendo, para desvincular o cativeiro do Embu da favela do Pantanal. No fim isso se tornou uma barriga, uma notícia furada.

Essa reportagem, esse pseudolaudo negativo, eram estratagemas para desvincular o que eu já tinha vinculado: o resgate do Dionísio ao sequestro do Celso Daniel. Além de tudo, ele tinha inúmeras ligações comprovadas com o Sombra.

Vejam vocês, eles estavam fazendo laudo fajuto! Esse automóvel Santana, dos pelos coletados, foi o que usaram para botar Celso Daniel no cativeiro do Embu. É possível fajutar laudos periciais mesmo com a perícia desvinculada da polícia; aliás, um enganador discurso que sempre usaram para justificar a tal independência funcional. Pegaram material apreendido e não examinaram. Isso prova que se pode fajutar laudo, até nos casos de maior repercussão.

Na área de Inteligência, nós falamos em análise de vínculos. Pode o leitor brincar um pouquinho de analista, basta relacionar os seguintes dados:

1.  Celso Daniel era amigo de Sombra;

2.  Sombra foi casado com Adriana;

3.  Adriana foi amante de Dionísio;

4.  Dionísio foi segurança de “Sombra”;

5.  Dionísio tinha contato com Itamar, que sequestrou o prefeito;

6.  Quando foi assassinado, Dionísio estava acompanhado de José Edson, comparsa de Itamar;

7.  Dionísio fugiu de helicóptero;

8.  O helicóptero prestava serviços ao PT;

9.  Quebra de sigilo indicou que o telefone celular de um deputado estadual do PT estava nas imediações do local do encontro do cadáver de Celso Daniel;

10. Esse deputado tinha um cheque de Sombra depositado em sua conta bancária;

11. Celso Daniel jantou com Sombra no restaurante Rubaiyat antes de ser sequestrado;

12. Garçom do Rubaiyat ouviu a última conversa de ambos e foi assassinado posteriormente.

13. Outro garçom do Rubaiyat contratou o helicóptero referido no item 8;

14. Manobrista do Rubaiyat era vigilante de cativeiro de pessoas sequestradas por Ivan Rodrigues da Silva, vulgo “Monstro”, comparsa de Itamar;

15. O garçom que contratou o helicóptero hospedava-se na rua Urca, no 23;

16. Na rua Urca, no 23, havia um veículo Santana em cujo porta-malas foram encontrados cabelos que seriam de Celso Daniel;

17. O garçom hospedava-se numa pensão de um tio de Klinger, braço-direito de Celso Daniel na prefeitura;

18. O garçom referido nos itens 13, 15 e 17 ocultava-se, por vezes, num apartamento onde Dionísio recebeu pessoas da prefeitura de Santo André.

Agora, perspicaz leitor, elabore um diagrama (em formato de teia de aranha) e surpreenda-se com o resultado.

On the rocks

Lembro-me  de um fato interessante, que derruba a concepção de que o prefeito Celso Daniel era um anjo, e seu governo um convento. Houve uma correria danada da cúpula do Ministério Público de São Paulo que, segundo consta, precisou encostar uma perua Kombi no Tribunal de Contas de São Paulo desesperadamente.

O Tribunal de Contas já tinha encaminhado mais de 100 processos referentes à administração dele, Celso Daniel, para o Ministério Público instaurar procedimentos e inquéritos, re

lativos a problemas com a administração, casos que mereciam investigação: desvios, propinas, irregularidades gritantes, uma série de coisas. Segundo a própria cúpula do Ministério Público referiu na época, um promotor da região era muito ligado ao prefeito, ele vivia bebendo whisky na sala do chefe do executivo municipal, depois do expediente, e nunca tomou nenhuma providência sobre supostas irregularidades na prefeitura. Então aquela história de que o Celso queria acabar com o esquema de corrupção não existe, até porque, para o Tribunal de Contas, ele era um dos prefeitos sobre quem pairavam mais suspeitas.

O procurador-geral do Ministério Público paulista da época, Dr. Marrey, foi quem mandou, desesperadamente, coletar isso, até porque lembrava ter uma série de denúncias e, quando mandou pesquisar, não existia nenhum procedimento instaurado com relação aos processos que o Tribunal de Contas havia encaminhado. Estava tudo engavetado e ninguém dava conta de encontrar a tal gaveta. Logo que começaram a estourar as notícias da morte do prefeito, falaram que havia pagamento de propina, desvio de dinheiro, enfim, várias eram as especulações das causas do crime.

Como dito, existiam mais de 100 processos, requisitados pelo TCE, de contas não aprovadas, de denúncias de toda ordem, contra sua administração, secretários e secretarias, desvios de recursos, de licitação malfeita; enfim, foi um desespero, e o pessoal do MP foi buscar as cópias de tudo isso de Kombi. Quase precisaram de um caminhão.

Comentavase que, em Santo André, tinha o promotor Dr. On the Rocks, cuja pronúncia combinava com porque ele vivia tomando um bom destilado na sala do Celso, mas o que era mesmo preciso tomar – providências – isso não acontecia.

Segundo soube posteriormente, após “operação-desova” e reconstituição de autos, restaram em torno de 120 novos processos instaurados relativamente àquela administração.

A prova inédita

Na minha vida não viro páginas em branco, já disse. A cada dia, ocorrem coisas que me motivam a continuar professando essa filosofia.

Vejam só: ao escrever este livro, e discorrer sobre o caso Celso Daniel, revelei ao Cláudio Tognolli algo que sempre me intrigou muito, que é o fato de o DHPP ter descartado qualquer hipótese de crime de mando, mesmo com todas as evidências que colhi e que cercavam o caso. Dentre elas, há uma sobre o cidadão que me procurou, a fim de informar ter visto veículos da prefeitura de Santo André, na noite anterior ao encontro do corpo do prefeito, naquele mesmo local da rodovia Régis Bittencourt.

Aquilo era uma bomba! Ouvimos a testemunha mais de uma vez, tivemos cautela de certificar a sua idoneidade; entretanto, era necessário confrontar uma informação mais, o que eu tentei dentro das limitações que me eram estipuladas, e não consegui chegar ao fim sem ter que avançar os limites que me foram impostos.

Com o maior sigilo, por absoluto profissionalismo, cerquei-me de todos os cuidados para que o caso não vazasse na mídia no que parece que fui bem-sucedido – alguém que quisesse fazer política não teria esse cuidado – e repassei para o DHPP prosseguir nas diligências. O que sempre me intrigou é que nunca soube o que ocorreu; e agora, ao escrever esse capítulo, o Tognolli, como excelente jornalista investigativo, foi atrás e descobriu, através de uma fonte, o que aconteceu com aquela papelada e aquela testemunha: nunca foram considerados! Aquela linha de

investigação jamais foi concluída, sequer ao inquérito do DHPP foi juntada!

Tenho cópia do depoimento e enviarei para o MP, se quiserem. O leitor encontra o fac-símile deste documento inédito deste livro. Pelo visto, parece que ficou mais fácil concluir por crime de ocasião. Esta história ainda vai se fechar, só espero que fechem também portas de cadeias com essa gente dentro!

Até hoje penso nas razões que levaram ao meu afastamento das investigações. Certamente, o governo do estado à época (PSDB) não queria que eu me destacasse (aliás, é o mesmo governo hoje e, misteriosamente, não me atribuem uma função:  venho tirando férias e licenças desde que o PT jogou-me nas mãos do PSDB, após minha exoneração do cargo de secretário nacional de Justiça).

Não entendo: qual seria a lógica de o PSDB não deixar investigar alguma coisa que, direta ou remotamente, poderia atingir o PT? Talvez porque era um crime bárbaro que colocava a própria política de segurança tucana sob forte crítica!

Arrisco que o fato espelhava uma face covarde do governo estadual, preocupado em não dar chance ao PT para se dizer vítima de alguma armação, com a comprovação de que os crimes ocorridos na administração municipal em Santo André foram a causa da morte do prefeito, em pleno ano eleitoral. O que poderia reavivar o episódio do sequestro do empresário Abílio Diniz, em 1989, às vésperas da eleição do presidente Collor.

Eu fazia uma investigação séria; não estava investigando o PT, estava investigando um crime em que a vítima era um importante político do PT, como o Celso Daniel. Ia prender o autor e, fazendo isso, beneficiaria, pelo menos em tese, o Lula, ao denunciar possíveis criminosos que estariam a seu redor, participando de sua campanha e de um provável futuro governo.

Quando houve o sequestro do Abílio Diniz, surgiu aquele negócio das camisetas, e no jornal saiu: “PT sequestrou Abílio Diniz”. Aquilo deu um efeito político complicado. Só que foi no dia da eleição. O que o PSDB tinha medo era que se apontasse, realmente, como autores pessoas ligadas ao Celso Daniel, à prefeitura e ligadas ao partido. O PT poderia fazer uma campanha pública de autodefesa e vitimização do tipo: “Estão querendo nos acusar novamente”, e criar um clamor social a seu favor, dizendo: “Olha, estão imputando tal fato contra nós”, o que ficaria difícil provar.

O discurso deles seria fácil. Pregariam assim como crer que gente do PT iria fazer alguma coisa contra o Celso, que era o homem mais importante da campanha do Lula? Quem iria acreditar? O povo, certamente, ao lembrar-se do episódio de 1989, pensaria: “Ah é verdade! Estão sacaneando, que jogo baixo”. Isso iria se virar contra o PSDB e não haveria tempo de se reverter o quadro, além de desvirtuar totalmente o foco da campanha eleitoral, que poderia contaminar a disputa pelo governo de São Paulo, onde o Alckmin era imbatível.

Portanto, para o PSDB, quanto mais rápido acabasse esse negócio, melhor. Eles tinham esperança de ganhar a eleição, foi por isso que abafaram. No custo-benefício, era menos arriscado ajudar o PT naquele episódio; mas, como sempre, continuo a fazer aquilo de que mais gosto: investigar, ligar pontos, partir dos fatos para encontrar seus autores.

Post mortem

O caso Celso Daniel sempre foi cercado de muitos mistérios e de algumas especulações. Veja, por exemplo, o fato de a cúpula da polícia ter designado a doutora Elizabeth Sato para presidir o segundo inquérito.

278

Aquela não foi uma providência acertada. Afinal, a Bequinha, como nós, seus colegas, a chamamos carinhosamente, era delegada titular de um distrito sensível, o 78o na zona sudoeste, o mais destacado de São Paulo, com inúmeras atribuições e atividades diárias. Ela tinha perspectivas de ascensão na carreira, e o caso poderia sugerir sua vulnerabilidade a direcionamentos superiores, ou uma necessidade de agradar a administração; enfim, não era e não foi uma escolha oportuna.

Registro que não trato da competência profissional dela, que é indiscutível, mas da estrutura material e da devida independência funcional necessárias ao titular daquela tarefa – que certamente seria, como foi, régua de medição da capacidade institucional da Polícia Civil. Além do mais, se a Delegacia Seccional de Taboão da Serra, onde o crime ocorreu, fora preterida naquela época, como justificar agora uma investigação na circunscrição de um distrito que nenhuma relação tinha com o fato? A cúpula da polícia agia em absoluta contradição.

Era caso para um delegado de classe especial, seccional de polícia ou divisionário, com aparato material, pessoal e moral para investigar sem sujeição a pressões, viessem de onde viessem. A delegada Sato deveria ter sido preservada.

Com os recursos de que dispunha, e certamente a pressão que sofria, a Dra. Sato cumpriu seu trabalho e confirmou minha tese investigativa: Dionísio de Aquino Severo era implicadíssimo no sequestro e morte do prefeito Celso Daniel, que teve ação compartimentada, e levou para o túmulo o que poderia revelar. Em outras palavras, ela reconheceu que o Dionísio era o vínculo com o esquema do Sombra e de seus comparsas. Só por isso já se vê como são inverídicas as notícias que afirmam que a polícia refez a investigação e chegou ao mesmo resultado.

A cúpula da polícia deveria ter preservado a Bequinha. Não entendo porque não o fez. Hoje, já promovida à Classe Espe

cial, ela dirige o DHPP (EXPLICAR SIGLA) e tem uma estrutura fantástica para – agora sim, e se deixarem – reinvestigar o caso. Seria uma forma de ela desmentir todas as especulações que circularam, até por email, aludindo a um possível parentesco distante com o ex-presidente Lula, para que ela não fizesse uma investigação isenta. Até hoje o Greenhalgh não respondeu a uma pergunta que lhe fiz, na época, sobre o significado do nome da empresa de transporte ROTEDALI, pivô de um possível desentendimento: se era a junção das iniciais de Ronan, Tereza, Daniel e Luiz Inácio, possíveis sócios. Ele prometeu verificar mas nunca mais tocou no assunto.

Também ninguém mais falou da briga entre Celso Daniel e Klinger, sobre a candidatura do segundo, impedida pelo primeiro, para que o esquema não sofresse qualquer alteração que pudesse pôr em risco o projeto do partido, e se isso teve alguma influência no sequestro do prefeito.

O mesmo mistério guarda o que foi tratado na reunião que Sérgio Sombra e Celso Daniel tiveram antes do jantar no restaurante Rubaiyat, em um apartamento dos jardins.

Estado da arte

E como ficou o caso na Justiça?

Elcyd Oliveira Brito dirigia a Blazer usada no sequestro do prefeito. Disse em juízo que o torturaram para que confessasse participação no crime. Foi condenado a 22 anos de prisão.

Ivan Rodrigues da Silva, o Monstro, era o chefe da quadrilha da favela Pantanal, na divisa de São Paulo com Diadema, que matou o então prefeito de Santo André, Celso Daniel, a mando de Sérgio Gomes da Silva, o Sombra. O que aconteceu: Ivan Rodrigues da Silva foi julgado em maio de 2012. Foi condenado a 24 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado.

José Edson da Silva foi acusado pelo Ministério Público de integrar a quadrilha da favela Pantanal. O que aconteceu: José Edson da Silva foi julgado em maio de 2012, e condenado a 20 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado.

Rodolfo Rodrigo dos Santos Oliveira, o Bozinho, também era da quadrilha da favela Pantanal. Foi julgado em maio de 2012 e condenado a 18 anos de prisão por homicídio duplamente qualificado. Na época do crime, era menor de 21 anos

Marcos Roberto Bispo dos Santos serviu como motorista do bando que sequestrou e matou Celso Daniel. Foi sentenciado em novembro de 2010 a 18 anos de prisão.

O empresário Sérgio Sombra era amigo e braço direito de Celso Daniel. Diz a promotoria que ele coordenava a coleta de propina entre empresários que tinham negócios com a prefeitura. Sombra estava com Celso Daniel no momento do sequestro. Dois anos após a morte de Celso, Sombra foi acusado pelo Ministério Público de mandar matar o amigo e passou de testemunha a réu. Foi preso por sete meses, mas desde 2004 responde em liberdade ao processo, por determinação do STJ.

Um rol de mortes está no entorno do caso: são sete ao todo.

1. Dionísio Aquino Severo – Certamente envolvido no sequestro de Celso Daniel e uma das principais testemunhas no caso. Morto três meses após o assassinato de Celso.

2. Sérgio (‘Orelha’) – Escondeu Dionísio em casa após o sequestro. Fuzilado em novembro de 2002.

3. Otávio Mercier – Investigador da Polícia Civil. Telefonou para Dionísio na véspera da morte de Daniel. Morto a tiros em sua casa.

4. Antonio Palácio de Oliveira – O garçom que serviu Celso Daniel na noite do crime, pouco antes do sequestro. Morto em fevereiro de 2003.

5.  Paulo Henrique Brito – Testemunhou a morte do garçom. Levou um tiro, 20 dias depois.

6.  Iran Moraes Redua – O agente funerário que reconheceu o corpo do prefeito jogado na estrada, e chamou a polícia em Juquitiba, morreu com dois tiros em novembro de 2004.

7.  Carlos Delmonte Printes – Legista que atestou marcas de tortura no cadáver de Celso Daniel, foi encontrado morto em seu escritório em São Paulo, em 12 de outubro de 2005.

Certamente, o que garantiu a impunidade, até hoje, dos cabeças que articularam e/ou se omitiram diante dos crimes que culminaram na morte de Celso Daniel foi a eleição de Lula naquele ano, e sua permanência no poder. Esse fato possibilitou a distribuição de espaços, cargos e recompensas aos companheiros, e permitiu empregar, até o presente, todos os órfãos, atores, “viúvos” e “viúvas” do prefeito morto de Santo André. E com certeza contribuiu decisivamente para que, burras abastecidas, as bocas permanecessem caladas e os ânimos serenados. Afinal de contas, Celso era o homem forte de Lula, e seria seu “primeiro-ministro”. Apesar de sua morte, o projeto de poder bem-sucedido possibilitou a continuação daquele esquema iniciado em Santo André, agora numa dimensão “nunca antes vista na história desse país”. Sua morte, portanto, não foi em vão.

O hábito de realizar investigações durante uma vida inteira deixa-nos com uma certeza: a de que os mortos falam. É preciso ter tirocínio para perceber, nos detalhes, a história que está posta diante de nossos olhos, desde que queiramos enxerga-la.

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