A CHAPA ESQUENTOU é a reportagem de capa da Veja ilustrada com Temer e Dilma

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Assim que começaram a vazar os primeiros detalhes do depoimento do empreiteiro Marcelo Odebrecht, prestado na Quarta-Feira de Cinzas, o mundo político oscilou entre aliviado e tenso. Aliviado, porque logo se divulgou uma leitura segundo a qual o depoimento fora positivo para o presidente Michel Temer, pois Marcelo Odebrecht confirmara o controvertido jantar no Palácio do Jaburu, ocorrido em maio de 2014, mas garantira que o então vice-presidente não mencionara valores. Tenso, porque não foi preciso mais de um dia para que se disseminasse a percepção de que as razões para o alívio eram um tanto ligeiras.

Com suor pingando do rosto, apesar do ar condicionado, Marcelo Odebrecht falou por quatro horas ao ministro Herman Benjamin, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Metido em um conjunto esporte fino, com um blazer sofisticado sobre a camisa de mangas compridas, respondeu a todas as mais de 100 perguntas. E destravou o pino de uma bomba em Brasília. VEJA teve acesso aos principais trechos do depoimento. São eles:

A chapa Dilma-Temer disputou a eleição em 2014 forrada com dinheiro de caixa dois, o que abre caminho para a cassação no processo do TSE que julga a campanha por abuso do poder econômico e político.

No jantar do Jaburu, não se falou em valores, mas sacramentou-se ali uma ajuda financeira, clandestina e acertada previamente, de 10 milhões de reais ao PMDB. A ajuda oficial, a que o Palácio do Planalto se refere, é outra, de 11,3 milhões de reais (confira o quadro ©J.

O PT locupletou-se do caixa dois da Ode-brecht. Só na campanha presidencial de 2014, recebeu 150 milhões de reais da empreiteira. Computando-se as doações desde 2008, a soma chega a astronômicos 300 milhões.

A diferença entre Dilma Rousseff e Michel Temer é gritante. Dilma teve inúmeras conversas sobre doação, destacou dois auxiliares para tratar do assunto e ainda foi alertada para o perigo que corria com a Lava-Jato. Temer, segundo Odebrecht, conversou com ele só uma vez — no jantar do Jaburu.

As revelações, se confirmadas pelas investigações que ainda serão realizadas, detonam a versão da ex-presidente Dilma de que jamais tratou de dinheiro clandestino “com quem quer que seja”. Marcelo Odebrecht rememorou o encontro que teve com a então presidente durante uma viagem ao México, quando a avisou de que a Lava-Jato podia chegar ao dinheiro “contaminado”. Ou seja: aos recursos clandestinos que vinham de uma offshore controlada pela empreiteira.

Marcelo Odebrecht também contou que tratava de doações com o ex-ministro Antonio Palocci, hoje preso em Curitiba, e, posteriormente, com o ex-ministro Guido Mante-ga, com quem chegou a acertar o pagamento de uma propina de 50 milhões de reais em troca da aprovação de uma medida provisória, a de número 472, que salvou da falência a Braskem, empresa do grupo Odebrecht. O PT mantinha uma “conta-corrente” junto à Odebrecht, da qual sacava dinheiro quando dele precisava.

Se a ex-presidente Dilma Rousseff ainda tivesse uma vida política, o depoimento de Odebrecht seria uma hecatombe definitiva.

Como já foi pulverizada no impeachment, as revelações do empreiteiro ajudam a inviabilizar seu discurso ético e reduzir ainda mais suas chances de voltar à vida pública. Por mais de uma vez, em seu depoimento, Marcelo Odebrecht garantiu que Dilma sabia das doações e, claramente, tinha noção de que parte dos recursos era ilícita, sobretudo os pagamentos ao marqueteiro João Santana, que recebeu milhões e quase tudo pelo caixa dois. Foi sobre isso que o empreiteiro tentou alertar Dilma na conversa no México.

No caso de Temer, o impacto é menos intenso, mas, por estar no auge do seu poder político, as conseqüências tendem a ser mais relevantes. Marcelo Odebrecht deu elementos suficientes para o ministro Herman Benjamin vir a pedir acassaçãoda chapa vitoriosa em 2014.0 Palácio do Planalto percebeu o calor e começou a bolar uma nova tática: postergar ao máximo o julgamento do caso no TSE. Tem tudo para dar certo. Nos próximos meses, dois ministros do TSE deixarão o tribunal, e caberá a Temer indicar os novos nomes. Em outubro, o próprio ministro Benjamin encerra sua atividade no TSE. Se, até lá, o caso não estiver julgado, irá para as calendas gregas ao cair na mão de um novo titular, dando a Temer tempo suficiente para não ser incomodado até 2018.

Outra tática, essa anterior ao depoimento de Marcelo Odebrecht, é pedir a separação das contas eleitorais, sob a alegação de que só a parte de Dilma recebeu dinheiro sujo. O casuísmo dessa tese é tão gritante que tende a ser abandonado. “O que entendemos de uma chapa majoritária é que ela é indissolúvel, não tem chapa a presidente sem vice”, diz Alberto Luis Rollo, um dos maiores especialistas em direito eleitoral do país. Afinal, é difícil aceitar que Temer pode ser beneficiário dos 54 milhões de votos de Dilma mas nada tem a ver com a dinheirama que foi decisiva para alcançar esse resultado.

Do ponto de vista político, mas não jurídico, o jantar do Jaburu também complicou a vida do presidente. Ficou confirmado que Temer, na condição de vice-presidente, abriu as portas do palácio a um empreiteiro que estava sendo cortejado para fazer uma doação. Também se confirmou que a doação foi clandestina, ainda que Temer pudesse não saber disso. “Aquilo lá foi apenas para o shaking hands”, disse o empreiteiro, usando a expressão em inglês para “aperto de mãos”. No relato do empresário, o tamanho da bolada fora combinado previamente com o chefe da Casa Civil, Eliseu Padilha. Já a forma de pagamento foi acertada, depois do convescote, com o mesmo Padilha. Quando o jantar foi marcado, disse o empreiteiro, o grupo político de Temer estava ciente de que a Odebrecht não teria condições de repassar recursos por dentro. Àquela altura, a empresa já se comprometera a doar 11,3 milhões de reais ao PMDB, o que de fato fez e foi registrado na Justiça Eleitoral. O dinheiro legal beneficiou outros políticos, sobretudo senadores do partido. No jantar no Jaburu, o que estava em discussão era — para usar o raciocínio do depoente — um “extra”, ou seja, a fatia clandestina de 10 milhões de reais. A bolada foi destinada a comprar a simpatia do governo, segundo revelara Cláudio Melo Filho, ex-executivo da Odebrecht, em seu acordo de delação premiada. Marcelo Odebrecht e Melo Filho, porém, têm versões diferentes para o jantar. Ao contrário do que disse o empreiteiro, o ex-executivo afirmou aos procuradores da Lava-Jato que o valor do repasse, de 10 milhões, fora acertado diretamente com o presidente Temer.

Ao ministro Herman Benjamin, Marcelo Odebrecht explicou que, para a “segurança da empresa”, não poderia dar mais dinheiro ao PMDB oficialmente. O impedimento não ocorria apenas pelo limite de doação imposto pela legislação. Segundo ele, a Odebrecht não queria aparecer doando mais a esse ou àquele partido para não gerar pedidos extras de outras siglas. “Para proteger a empresa, nós já tínhamos acertado quanto seria o repasse oficial”, afirmou. Ele esclareceu qual era a lógica geral da empreiteira ao atender aos pleitos dos políticos sobre dinheiro. A finalidade, disse o empreiteiro, era sempre comprar portas abertas, privilégios e favores dos poderosos da hora. Disse mais: a conta sempre era apresentada a quem de direito. “Eu fazia questão de que os políticos soubessem o valor que estava sendo dado por meio de caixa dois”. Dos 10 milhões combinados no Jaburu, 6 milhões serviram para pagar despesas da campanha do peemedebista Paulo Skaf ao governo de São Paulo — a pedido, segundo Marcelo Odebrecht, do próprio Skaf. O destino dos 4 milhões restantes é, até hoje, um mistério que nem o empreiteiro soube elucidar. Cláudio Melo, na delação, disse que o restante do pagamento foi realizado “via Eliseu Padilha”.

Aparentemente, a questão dos 10 milhões do Jaburu não oferece riscos jurídicos a Temer, diante da expectativa do governo de que o processo se alongue por mais tempo, mas deixa o presidente em posição política delicada. A situação já estava complicada desde a semana anterior, quando VEJA publicou entrevista com seu melhor amigo e ex-assessor José Yunes. Ao dizer que recebera em seu escritório um “pacote” a pedido do ministro Padilha — nesse caso, “pacote” tem a forma, o cheiro e a cor de dinheiro vivo —, Yunes rifou-o. “Fui mula involuntária do Padilha”, disse Yunes, ao acrescentar que o tal “pacote” fora entregue por Lúcio Bolonha Funaro, conhecido operador do mercado financeiro preso há oito meses sob a acusação de fazer negócios escusos em parceria com caciques do PMDB, sobretudo o notório Eduardo Cunha. Na semana passada, direto do presídio da Papuda, em Brasília, Funaro respondeu a algumas perguntas de VEJA. Embora sustente que a versão contada por Yunes é um “conto da carochinha”, ele confirmou ter visitado o escritório do amigo de Temer para tratar da entrega do tal “pacote” (leia a entrevista ©).

Licenciado para submeter-se a uma cirurgia de próstata em Porto Alegre, Padilha encontra-se na fogueira de uma história controvertida e, com isso, está mais fora do que dentro do governo, privando o presidente Temer de seu principal assessor. Essa situação eqüivale ao momento em que o então presidente Lula perdeu seu braço-direito José Dirceu, por sinal ocupante do mesmo cargo de Padilha, a chefia da Casa Civil. Com essa perda, Temer já ficou sem três de seus principais auxiliares. Além de Padilha, foram-se Romero Jucá, gravado discutindo um modo de “estancar a sangria” da La-va-Jato, e Geddel Vieira Lima, pilhado fazendo tráfico de influência dentro do governo. Os dois, junto com Padilha, também carregam suspeitas que os colocaram debaixo da espada das investigações do petrolão. O jornalista Elio Gaspari, em artigo publicado nos jornais na quarta-feira passada, assim resumiu a quebradeira: “Nunca na história deste país um presidente perdeu tantos colaboradores em tão pouco tempo por motivos tão pouco louváveis”.

Desde que Temer assumiu o lugar de Dilma, Lúcio Funaro envia recados ameaçadores ao Palácio. “Se eu quiser, destruo o Temer”, já disse ele a mais de um interlocutor ouvido por VEJA. Pode, claro, não passar de bravata. Funaro ensaia fechar um acordo de delação premiada, mas nega que esteja pensando na hipótese — uma ambigüidade própria de quem quer espaço para negociar qualquer saída. Nos últimos meses, por duas vezes o operador deixou a Papuda para tratar do assunto em reuniões reservadas com representantes do Ministério Público Federal. Acusado de receber propinas em nome de Eduardo Cunha, ele ameaça contar que não operava só para o ex-presidente da Câmara, mas para todo um grupo do PMDB, que incluiria Temer, Padilha e Geddel.

Mesmo antes do depoimento de Marcelo Odebrecht e de outros executivos da empreiteira, o TSE já tinha provas de sobra do uso de recursos ilícitos na campanha à reeleição de Dilma e Temer. Os testemunhos dos delatores, porém, ajudam a dar cores mais fortes àquilo que já estava anexado aos autos. Marcelo Odebrecht disse que, entre caixa dois e propinas negociadas com o partido, a Odebrecht repassou ao PT 150 milhões de reais durante a disputa de 2014.0 dinheiro era parte da “conta-corrente” mantida pelo partido junto à construtora. O empreiteiro levou para o depoimento uma cópia da movimentação da conta, organizada em uma planilha de Excel de cinco páginas, com dados atualizados até março daquele ano. O valor —150 milhões — representa quase metade dos gastos que o PT declarou oficialmente na campanha de 2014.

Ao explicar a cifra e o funcionamento da “conta-corrente”, Odebrecht declarou que ali entravam também os valores relativos a propinas. Disse, por exemplo, que a soma inclui 50 milhões de reais pagos em troca da medida provisória de interesse do grupo editada durante o governo de Lula e negociada direta- mente com o então ministro da Fazenda, Gui-do Mantega. Outros 60 milhões de reais foram pagos como contrapartida à liberação de um financiamento pelo BNDES. O intermediário dessa parte foi, segundo ele, o ex-ministro do Planejamento Paulo Bernardo. O empreiteiro afirmou que, quando Antônio Palocci era ministro, era a ele que cabia autorizar as liberações de crédito da conta-corrente. Depois, disse, a tarefa ficou a cargo de Mantega. Ode-brecht contou que teve mais de 100 reuniões com Dilma e Mantega. “Com todo esse acesso e todas as contribuições que o senhor fez, não se achava o dono do governo?”, perguntou o ministro Herman Benjamim Odebrecht respondeu com ironia: “Eu não me achava o dono do governo, me achava um bobo da corte”. Indagado sobre como vê a legislação eleitoral e a corrupção que envolve políticos e partidos, disse que os repasses de propina e caixa dois para campanhas eram parte da paisagem: “Era algo absolutamente natural. Todos os partidos e candidatos faziam”.

O empreiteiro contou que, normalmente, era ele próprio quem cuidava dos repasses a campanhas presidenciais. Em 2014, disse, a exceção foi a campanha do tucano Aécio Neves. Por serem mais próximos ao candidato, dois executivos da companhia ficaram encarregados da relação com o senador. Em apenas uma “situação emergencial”, Aécio procurou o próprio Marcelo, solicitando um auxílio adicional para sua campanha. Mas, de acordo com o empreiteiro, a solicitação não pôde ser atendida da forma que Aécio gostaria. Também em depoimento ao TSE, outro alto dirigente da Odebrecht, Benedic-to Júnior, revelou ter repassado 9 milhões de reais a quatro pessoas próximas de Aécio, entre elas o senador Antônio Anastasia e o marqueteiro encarregado da campanha do tucano. Procurado, o senador explicou que pediu a ajuda, sim, para o partido e para correligionários, mas desconhece se os recursos provinham de caixa dois ou mesmo como foram repassados aos candidatos. A seu favor, nem Marcelo Odebrecht nem Benedicto Júnior fazem acusação de seu envolvimento com dinheiro de caixa dois

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