Lava Jato e crise derrubam receita das grandes construtoras em 2016

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Safra de balanços das empreiteiras mostra um cenário mais desfavorável que em 2015, agravado por projetos interrompidos e pela própria crise econômica; receita da Camargo Correa encolheu quase 40%.

Os balanços das grandes construtoras em 2016 confirmam um baque já esperado pelo mercado. No segmento de engenharia, as principais empreiteiras do país tiveram uma drástica queda na receita, puxada pela paralisação de projetos de infraestrutura e pela crise no mercado de construção civil.

Para especialistas do setor, os efeitos da operação Lava Jato ficaram mais claros nas demonstrações financeiras este ano, mas este cenário desfavorável foi agravado pela crise econômica, que atingiu em cheio o setor de construção civil no ano passado.

No caso da construtora do grupo Camargo Correa, a receita líquida encolheu 38% em 2016, para R$ 1,867 bilhão. Andrade Gutierrez divulgou uma receita de R$ 2,051 bilhões, 30,8% menor que em 2015. A Engevix Engenharia foi a que sofreu a maior redução percentual no ano passado, de 62%.

A Odebrecht não publicou o balanço financeiro no prazo legal. A lei determina que as empresas de capital fechado que compõem sociedades anônimas (SAs) de grande porte têm quatro meses após o fim do ano fiscal para divulgar seus balanços anuais. Ou seja, até o fim de abril.

Sem surpresas

Para o professor Marcos Piellusch, coordenador de cursos da FIA (Fundação Instituto de Administração), a queda expressiva na receita das empreiteiras no ano passado não surpreende.

Sem poder participar de licitações da Petrobras desde 2014, estas empresas perderam contratos de grandes obras e foram obrigadas a paralisar projetos, em meio a dificuldades em obter crédito, após serem citadas por envolvimento nas irregularidades da Lava Jato.

A especialista em infraestrutura da Go Associados, Luciana Nazar, avalia que a receita destas construtoras foi temporariamente afetada pela queda nos investimentos. “Estas empresas passam por um período de adaptação a regras mais rígidas de compliance que estão sendo adotadas após os desdobramentos da operação”, explica.

A retomada destes projetos, geralmente obras de grande porte e longo prazo, está condicionada ao cumprimento destas regras para recuperar a imagem das empresas, manchada pelas investigações, diz Luciana.

Construção civil em crise

Em 2016, o PIB da construção civil recuou 5,2% sobre o ano anterior, agravando o desempenho já ruim da economia brasileira, que encolheu 3,6% no período, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A atividade das construtoras formais no país recuou 18,2% em 2016, segundo índice medido pelo Sinduscon-SP.

O setor de construção perdeu mais de 1,08 milhão de vagas de trabalho em 27 meses até dezembro de 2016, segundo dados da entidade. O estoque de empregos caiu de 3,57 milhões em outubro de 2014, para 2,48 milhões no fim do ano passado.

Para Luciana, a Go Associados, não é possível atribuir quanto da crise nas grandes construtoras se deve à operação Lava Jato, e quanto tem ligação com a recessão da economia, uma vez que os efeitos estão interligados.

Efeitos da crise imobiliária

Piellusch, da FIA, considera que a crise do setor imobiliário foi outro componente que ajudou a afetar a receita das grandes construtoras. Em 2016, o volume de crédito para a compra e construçção de imóveis recuou quase 40%, segundo a Associação Brasileira de Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança (Abecip).

Segundo ele, mesmo não sendo o principal ramo de atuação das grandes companhias, todas elas mantêm projetos imobiliários na carteira. “O forte aumento nos distratos (devoluções de imóveis na planta) ainda gera reflexos negativos no caixa destas empresas”, afirma.

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