Empresa de coronel atendeu a demandas públicas e privadas de Temer, diz PF

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O delegado Cleyber Malta Lopes, da Polícia Federal, afirma em relatório enviado nesta quinta-feira (28) ao STF (Supremo Tribunal Federal) que a estrutura financeira da Argeplan, empresa do coronel João Baptista Lima Filho, foi colocada à disposição de “demandas da vida pública e privada” do presidente Michel Temer.

A afirmação foi feita no pedido de prorrogação por 60 dias do inquérito que investiga suposto pagamento de propina em um decreto do setor portuário. A Folha teve acesso ao documento. O relator do caso no Supremo, Luís Roberto Barroso, autorizou a continuidade das investigações até que a PGR (Procuradoria-Geral da República) se manifeste.

Segundo o delegado, “os elementos colhidos indicam que a Argeplan e sua estrutura financeira e funcional por diversas vezes foi colocada em atendimentos de demandas da vida pública e privada do excelentíssimo presidente Temer”.

No pedido, o delegado enumera uma série de diligências feitas na investigação e afirma: “de forma paralela aos vários contratos e vínculos suspeitos com o setor portuário, temos que as buscas e apreensões e demais elementos trazidos aos autos também demonstraram dezenas de ligações da empresa Argeplan, seus sócios e outras empresas interligadas, diretamente com a vida política e privada do senhor Michel Temer”.

Esse relatório é a primeira manifestação oficial do delegado após uma série de depoimentos dados nos últimos dois meses.

Segundo o relatório, os vínculos de Temer com o coronel ganham “mais relevância” por causa dos serviços prestados em 2014 pela empresa do coronel à reforma na casa de Maristela Temer, filha do presidente, alvo do mesmo inquérito.

Ele destaca a contradição entre os depoimentos de fornecedores e de Maristela. Segundo os empresários, as despesas com a obra somaram ao menos R$ 1,3 milhão, enquanto a filha de Temer disse ter gasto R& 700 mil.

“Maristela ainda não apresentou qualquer recibo que comprovasse em definitivo que os gastos foram suportados de fato por ela”, disse o delegado.

O delegado menciona, por exemplo, o depoimento de Luis Eduardo Visani, fornecedor que diz ter recebido R$ 950 mil em dinheiro vivo da Argeplan para a obra.

“Se pegarmos apenas os valores e recibos apresentados por Luiz Eduardo Visani, contratado para fazer parte da obra, temos que o valor pago por João Batista, na sede da Argeplan,aproximadamente 950 mil reais em dinheiro vivo, já superior ao que se alega gasto por Maristela Temer, ainda que tenha como comprovar tais pagamentos”, diz o delegado.

A PF apura se Temer recebeu, por meio do coronel Lima, propina de empresas do setor portuário em troca da edição de um decreto em maio de 2017 que teria beneficiado companhias que atuam no porto de Santos. O presidente tem negado as suspeitas.

Segundo o relatório policial, as alterações solicitadas pelas empresas foram “extrapolavam a regularidade, estendendo benefícios ilegais” a elas.

Para investigadores, a origem do dinheiro das obras de Maristela Temer são a JBS e uma empresa contratada pela Engevix. Executivos da JBS afirmaram em delação que repassaram R$ 1 milhão a Temer, com intermediação do coronel, em setembro de 2014.

No relatório enviado ao STF, o delegado afirmou: “Importante notar que o período da obra abrange o ano de 2014, mesmo ano em que os colaboradores da J&F/GRUPO ELDORADO, Joesley e Saud alegam que entregaram 01 milhão de reais, em ‘dinheiro vivo’, sede da Argeplan, diretamente para João Batista Lima Filho, fato que vem ganhando maior relevância, sobretudo após análise de material apreendido na sede da empresa, além da suspeita de recebimento de outros valores no mesmo período”.

Reportagem da Folha mostrou que documentos em poder da Polícia Federal comprovam o uso de dinheiro vivo no pagamento da reforma da casa de Maristela Temer.

Em depoimento no dia 3 de maio, Maristela disse que seu pai indicou o coronel para ajudá-la na reforma de sua casa, em 2014, mas que a fez conta própria e que a mulher de Lima apenas a ajudou, sem receber por isso.

Sobre os pagamentos a fornecedores feitos por Maria Rita, a filha de Temer disse que a ressarcia das despesas, mas “que não sabe precisar a forma do ressarcimento, uma vez que em algumas ocasiões repassava para Maria Rita Fratezi também em espécie, fruto de sua remuneração recebida de pacientes em seu consultório, e outras vezes também em cheques”.

O coronel Lima já foi alvo duas vezes de operações da PF. A última foi em março deste ano, quando ele chegou a ficar preso por alguns dias. Até hoje ele não esclareceu o caso à polícia.

Folha